Falta de civilidade, fuso, coliformes fecais e outras impressões de Uluwatu

A tão esperada etapa em Uluwatu decepcionou e reacendeu temas controversos e polêmicos. Também me fez viajar no tempo e relembrar como foi estar em Bali pela primeira vez. Uma experiência inesquecível por duas razões. Foi lá que vivenciei incríveis descobertas pessoais, uma com a vida e outra com a morte.

Por Janaína Pedroso

Primeiro uma grande lição sobre a existência. Surfar uma das esquerdas mais perfeitas do mundo e conhecer Uluwatu me aproximou de sentimentos a respeito da gratidão pela vida. Tudo teria valido a pena diante daquele pôr do sol, daquela caverna, do cliff, da bondade do povo nativo, dos temperos e sabores, das ofertas de massagem, dos templos, dos inúmeros deuses e oferendas humanas a todos eles e, principalmente, por aquelas ondas perfeitas.

Infelizmente, nem tudo foram flores, magia e cheiros deliciosos de incenso. Misturados ao perfume e total encanto havia algo que fedia mais que tudo nesta vida: a merda humana.  O cheiro de esgoto no caminho até o sonho era forte. Olhava meus pés descalços e imaginava voltar com no mínimo uma micose. O sonho tinha virado pesadelo.

Voltei de Uluwatu não só com a experiência de ter surfado as melhores ondas da vida, mas também com uma grave infecção. Já estava no Brasil há semanas e tudo que eu conseguia fazer era vomitar e defecar. Nem a mais pura e límpida água mineral parava no meu estômago. Já havia tentado todos os tipos de medicinas, das tradicionais às alternativas, mas nada era capaz de fazer com que eu parasse de jorrar o que ainda restava no meu estômago.

Surfo a esquerda mais perfeita do planeta antes da fatídica infecção. Arquivo pessoal.

Minha pele rachara de tão seca e à medida que a desidratação avançava a sensação se agravava. Tudo isso acompanhado por muita febre, tremores e breves alucinações. Minha coloração também havia mudado, de uma palidez sutil nas primeiras horas da infecção cheguei ao bizarro tom esverdeado, os olhos estavam mais fundos, com olheiras especialmente arroxeadas. Era grave. Visitei uma das melhores infectologistas de São Paulo e graças a ela estou aqui contando sobre isso. Sim, eu poderia ter morrido se não fosse a Dra. Nancy. (Obrigada Dra. Nancy!)

Por essa e outras a Indonésia e especialmente Uluwatu foi e sempre será inesquecível. Aprendi, entre outras coisas, que antes de ir ao arquipélago mágico é preciso tomar uma dúzia de vacinas. Não só a da febre amarela. Essa é exigida aos brasileiros, já que na verdade, é uma imposição ao país, considerado um transmissor universal da mazela. Portanto, ir a Indonésia pode ser realmente uma experiência radical. Não pelas ondas apenas, mas sim pela infinita possibilidade de males que você possa vir a sofrer. Na lista estão hepatites, verminoses diversas e infecções em geral.

Surfistas recebem massagem no cliff. Arquivo pessoal.

Bali pode ser sem dúvida o melhor e o pior lugar do planeta. Como se não bastasse a água e os alimentos contaminados o pico é o playgrowd de muita gente que se aproveita da situação para deteriorar ainda mais o lugar. Turismo predatório total. Uma cena que me estarreceu completamente foi ver australianos enchendo a cara com a barata e aguada Bintang (pra eles uma garrafa de 600ml de breja custa pouco mais de 1 dólar) e largando garrafas e mais garrafas espalhadas na rua em frente à loja de conveniência. Sem falar da baladinha que rola no Cliff. O mijo e a merda da galerinha que quer curtir e encher a cara a preço de banana custa bem caro pra natureza.

Sem contar a barganha. Uma das coisas mais chocantes é ver como turistas do mundo inteiro se aproveitam da pobreza do povo local, é no mínimo triste. A desculpa que mais ouvi sobre a famosa pechincha é que isso é natural do povo Indonesiano. Honestamente, sei que isso é verdade. Inclusive, uma vez saí puta da vida de uma loja na tentativa de saber o preço de uma peça de roupa. Eu tinha amado o vestido e fui perguntar o valor à vendedora. Ao invés dela dizer o preço, a senhora me retrucou com uma pergunta: “Quanto você quer pagar?”. Entramos numa pequena discussão, pois eu relutava em responder. “Não, minha senhora, eu não quero barganhar agora. Só quero saber quanto custa o vestido”. Saí indignada por não saber quanto custava o bendito, e sem ele, óbvio. E com uma dúvida. Quem veio primeiro: a barganha ou o “barganhador”?

Visual de Uluwatu logo cedo.

Porém, a Indonésia não é só o quintal do turista explorador e mal-educado. Ela é muito mais que isso, prometo a você. O arquipélago é realmente mágico e possui uma infinidade de lugares próximos a Bali que eu poderia muito bem viver o resto da vida. É o paraíso de ondas perfeitas. É cheia de tempero, sabor e sorriso sincero, muitos deles desdentados. É muita paz e pobreza junta. É também caótica e conflitante. Como a maiorias dos paraísos subdesenvolvidos da Terra. Se você acha que o Brasil é a “casa da mãe Joana”, é porque não foi a Bali ainda. Aquilo sim é praticamente um puteiro a céu aberto.

E parece que foi nesta vibe putaria e no rules at all (sem regras total) que certos acontecimentos fizeram surgir boatos, ou melhor, um depoimento no mínimo polêmico sobre Medina. Em uma espécie de “carta anônima”, o depoente relata um comportamento nada louvável do campeão mundial e seu compatriota Italo Ferreira. O conteúdo foi compartilhado em um grupo fechado do Facebook e se alastrou pelos infindáveis e sem barreiras mundo da Internet.

Em um primeiro momento, saí em defesa dos surfistas. Afinal, eles precisam treinar poxa vida. Lembro de ter dito inclusive que se eu tivesse a oportunidade de dividir o outside (área onde os surfistas aguardam as ondas) com caras como eles iria assistir feliz ao treino deles. Porém, o misterioso autor da carta afirma que os treinos de ambos duravam o dia inteiro (aí fica difícil defender). A carta vai além e dá detalhes. Diz que o ídolo nacional não poupou nem ao menos as criancinhas e os idosos e ganhou um belo “Fuck you!” (Vai se foder), bem alto e pra todo mundo ouvir, depois de rabear (surfar a onda de alguém que detém a prioridade da mesma) um conhecido surfista local.

Não é de hoje que Medina leva fama de fominha. Na Califórnia ele levou um apavoro, e daquela vez, saí em sua defesa. Porém, desta vez serei neutra. Afinal não estou aqui para julgar ninguém. Além do mais eu não estava lá, não vi nada do que aconteceu e minha opinião não interessa a ninguém, tirando minha vó e minhas tias, eu acho.

Medina encaixado em tubo de Uluwatu. WSL / Sloanne

Para quem não conhece o pico (lugar) vale mencionar que Uluwatu é considerado um dos lugares mais crowdeados (lotado de surfista) do planeta. Todo o tipo de praticante, de diferentes níveis disputam por uma onda. A extensa bancada produz ondas diferentes, o que faz do lugar ainda mais especial.  Como a volumosa Temples, ou ainda a superveloz “Inside Corner”.

Resumindo porcamente Uluwatu é sem dúvida um dos lugares mais mágicos do planeta, mas a etapa não transmitiu isso, na minha opinião. Não sei se foi meu sono e a dificuldade de ter que lidar com o fuso horário, ou se foi a notícia de que meus ídolos na verdade não são tão  civilizados como eu gostaria. Talvez o ângulo da câmera de transmissão, que posicionada muito acima da linha do horizonte, não dava uma boa impressão na tela. Não sei se foi o julgamento totalmente suspeito e broxante em certas baterias. Não sei.

Por outro lado, se tem alguma coisa boa nesta história foi ver a alegria de Willian Cardoso saindo carregado enquanto ainda estava na caverna. Afinal, o Brasil tem dado poucos motivos de orgulho e, recentemente, nem a seleção de futebol parece animar como nossos representantes dos mares. Me desculpem os boleiros e eternos amantes do esporte, mas a realidade da modalidade no país é inundada por corrupção e compra de resultados. Além da demolidora exportação de talentos para além das fronteiras brasileiras, que enfraquece ainda mais nosso espetáculo.

Alegria pouca é bobagem.

Voltando ao surfe, apesar de admirar a garra do grande vencedor em Uluwatu, aos meus olhos ele está longe de ser um competidor supertalentoso.  Porém, campeonato é campeonato e neste jogo nem sempre o mais talentoso vence no final. Sem contar que gosto é gosto e não se discute, assim como estilo. Cada um tem o seu. Mark Occyluppo, Peterson Rosa, Neco Padaratz e Matt Wilkinson que o diga. Atletas que mesmo sendo considerados por muitos como “durões” e “sem estilo” venceram muitos eventos pelo mundo a fora.

Abusando ainda da analogia entre mares e gramados, no futebol o  time vencedor do campeonato é o que vence mais partidas. Já no surfe, quem é campeão mundial quase nunca ganha uma etapa. E para comprovar essa tese que, em princípio, pode parecer absurda, basta ver quantas etapas do Tour foram ganhas por quem venceu o tão cobiçado título mundial. Para exemplificar e comprovar vamos aos fatos.

Em 2015, quando Adriano de Souza foi campeão mundial, de todas as etapas ao longo do ano o brasileiro ganhou apenas duas. Uma em Margaret e outra em Pipeline. No ano seguinte a história se repetiu. O americano John John Florence garantiu o título mundial com apenas duas vitórias ao longo do ano. Já no ano passado, quando conquistou o bicampeonato foi preciso apenas uma vitória, em Margaret. Portanto, no Tour, mais importante do que vencer é preciso se manter constante, com boas colocações e uma ou outra vitória.

Percebendo isso, a liga mudou recentemente as regras do jogo. Atualmente, quem vence uma etapa leva mais pontos para casa. Saberemos com o tempo se a mudança deixou o jogo mais atraente, e justo, especialmente.

Independente de pontos, vitórias e estilo, uma bateria envolve muito mais coisas. Há julgamentos questionáveis, dinheiro, intempéries da própria natureza, e claro, há o homem. O eterno e errante ser humano. A bem da verdade é que apesar do prognóstico repleto de boas expectativas o Uluwatu Pro 2018 decepcionou até os mais entusiastas e otimistas admiradores do Tour.

Resta agora torcer pelo Corona Open J-Bay que ocorre entre os dias 02 e 13 de julho. Vale fazer mandinga pra afastar tubarão branco, afinal os surfistas vão dividir espaço com os donos do pedaço, os maiores predadores do planeta. Apesar do risco, tenho Jefrey´s Bay como um dos lugares mais especiais, sem nunca ao menos ter visitado. Afinal de contas, se este blog hoje existe é por uma única razão, uma fita cassete de Kelly Slater surfando as direitas perfeitas e gélidas da costa sul africana. Assisti essa fita por longos meses, e graças a ela, ou melhor, ao que continha nela me encantei pelo esporte e pelo maior ídolo da modalidade, o sobre-humano e onze vezes campeão mundial, Mister Kelly Slater!

Que venha J-Bay e que Kelly dê o ar da graça desta vez.

Peace and love,

 

Autor: origemsurf

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10 Comentários

  1. Mais um texto que rende mais um monte de texto. Te entendo, vivi em Bangladesh em 2009 e, por mais pobre que eles possam parecer, não se comparam a nossa pobreza. Lá possuem a riqueza da cultura e o amor à uma religião genuína, sem ser um produto culpa da Globalização.
    Ainda esta semana me questionei quando vi nos stories de um freesurfer brasileiro mostrando o prato de comida recêm servido num buffet balinês: “Pouco mais de 1 dólar e meio…” disse com o prato cheio do que escolheu pra comer. Até onde vai esta vantagem? Qual benefício humano a gente deixa ou deveria deixar onde visitamos quando viemos de um mundo com mais oportunidades para outro não tão assim? Será que só pagadas ainda bastariam? Acho que podemos muito mais. Impactar positivamente, socioecononoambientalmente. Temos essa capacidade.
    E sobre o surfe, crowd, rabeagem e outras sacanagens, isso só se resolve com educação. E nesse processo ocorre fora e dentro do mar. Quanto menos quilhas temos na prancha, mais ondas surfamos compartilhadas em comunidade. Uma das razões de surfar de biquilha, mono e agora um loggeraddict é me afastar desse mundinho raso, árido e individualista das pranchinhas “foguete”.
    A dica pra quem não quer ver o Medina, Ítalo ou qualquer outro surfando todas? Alugue uma vespa com diária a preço de coxinha de rodoviária, se abrace numa pet de gasol e dispare pare rumo às suas ondas…
    Ficar na área VIP tem seu preço… Encontre seus espaço!

    Ps:
    1- Não defendo rabeadores, mas ignoro-os. Já fui um deles. Já fomos. Já empurrei alguns, já puxei leash de vários;
    2- Respeitar os locais é fundamental, mas tem muito pico que não tem local. E local que cai depois de haole geralmente só se ofende com alguém no pico quando chegam n° seguro de amiguinhos no lineup…)
    3- Respeite os locais e forme amigos. Tem gente que passa por uma cidade, leva fotos e deixa resíduos. Troque histórias, faça amigos!
    4- Bj, Jana! Parei por aqui… daqui a pouco tô competindo na polêmica e na quantidade de assuntos possíveis. E continue a nada. Continua a nada. Continue a nada… me amarro nos teus textos!

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    • Que honra ter você por aqui Fabrício! E que aula você deu com esse singelo comentário 🙂
      Adorei a parte sobre “Quanto menos quilhas temos na prancha, mais ondas surfamos compartilhadas em comunidade”, quero começar a refletir sobre isso. E sobre sermos babacas às vezes, é isso, ninguém é perfeito mesmo. Porém, comportamento constante é diferente de ação pontual, uma ou outra “rabiada”..quem nunca?! Você tem total razão. Na real não sei que parte desse seu comentário é melhor!!
      Talvez o melhor ponto foi você ter comparado “nossas” pobrezas. Realmente, tem alguma coisa naquela cultura que transcende a dor, a feiura e o mal cheiro.Tô morrendo de saudade de lá na real. Beijos e bom domingo pra vc!! jana

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  2. Cara Janaina, boa tarde,
    Parabéns pelo texto ,mas Mark Occhilluppo não ter estilo e ser durão,não está correto, com relação aos outros citados ,assim como William Cardoso está correto.
    Não vou aqui me estender, por que não participo de rede social e é a segunda vez que faço um comentário em um blog da folha , o outro foi causa de futebol
    Fotografei surf por vinte sete anos entre 1976 e 2003 e desculpe a falta de modéstia mas sei o que é um surfista com estilo até hoje.
    Você não gostar do estilo do Occy é uma coisa, mas comparar ele com os surfistas citados você está massacrando a história do esporte.
    Um abraço, muita paz-saúde e felicidade e boas ondas
    davies

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    • Olá, Davies. Boa noite!
      Primeiramente obrigada pela participação no blog. Ele existe justamente para gerar reflexões. Vou me dar ao luxo de me sentir lisonjeada, afinal você pelo que disse é um homem de poucos comentários. Entendo, futebol rende mesmo boas discussões.
      Indo direto ao ponto. Aceito suas colocações, e devo admitir que errei ao comparar de certa forma atletas que não fizeram nem parte do que fez Occhilupo para a história do esporte. Tem razão, o currículo dele prova isso.
      Apesar de reconhecer o erro, sigo acreditando que o estilo do Mark não segue a linha estilosa de nomes como Andy Irons, Kelly Slater, Tom Curren e Dave Rastovich, se entende o que quero dizer.
      Mais um vez, muito obrigada por entrar em contato!
      Bjs,
      jana

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    • Jose claudio Davies…o cara que me ajudou na fotografia de surfe…uma lenda…das lentes de surfe no brasil…boa DENTINHO…tmj sempre…abço Aiello @ceaiello

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  3. Olha, uma visão diferente da que li em outros sites especializados. Mas bem interessante, outra ótica. Não conheço Bali, e contribuiu.
    Agora, dizer que o Occy era durão e sem estilo, pegou muito pesado. E não tem como comparar o Occy com Neco, teco e Wilko.
    No mais, um abraço e parabéns!

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    • E aí, Dudu! Beleza?
      Pois é, parece que eu peguei meio pesado mesmo nesta questão. Nosso amigo Davies também apontou esse deslize. São atletas que não se comparam. Porém, como disse ao Davies, eu pessoalmente achava a agressividade de Mark extrapolada, quase que de forma incoerente com a plasticidade esperada por um atleta do calibre dele.
      Muito obrigada pela participação e comentário! O retorno de vocês é muito bacana e receber críticas construtivas e elogios é sempre muito bom!!
      Bjs e boa noite,
      jana

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  4. Pow Janaína, aí falou!

    Bali é uma loucura e um lugar tão distinto que, há quem frequente há décadas e ainda tente entender tudo que rola por lá…

    Gostei de saber um pouco sobre sua experiência – e acho bom que as verdades sejam ditas porque o turista surfista / surfista turista, ou melhor, alguns deles, ainda precisam aprender muito sobre humanidade.

    Na parte do Occy, apenas, acho que não se compara com Teco, ou Neco. Occy é pancada com estilo, pra mim!

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    • Pois é Alê! Acho que deu uma viajada mesmo no caso do Occy…justo eu que sou fanzaça do cara, já entrevistei ele e tomei café com a mãe dele, uma querida senhora por sinal, rs… sobre Bali a realidade é triste e acho uma verdadeira sacanagem como civilizações mais desenvolvidas conseguem ter uma postura tão ruim diante de picos mais carentes… bjs
      jana

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