Crônica de aniversário na Nazaré das ondas gigantes

Ela abriu os olhos depois de uma noite mal dormida no frio do inverno português. Seria um domingo comum, se não fosse pelo fato de ser seu aniversário.

‘Que preguiça das manhãs geladas sem sol’, pensou. O ânimo do ser humano está quase que diretamente associado às condições do tempo. Tá certo que ainda não chovia e o sol pretendia dar as caras depois que as últimas nuvens fossem embora com o vento, mas ela tinha vontade de passar o dia inteiro de baixo das cobertas.

Deitado ao lado, ele acordou em clima de festa e apaziguava o mau humor, o cansaço e as preocupações banais dela. É certo que cada um tem suas particularidades, mas de maneira geral eles se conheciam muito bem e sabiam como convencer um ao outro a vencer a preguiça e quase todos os outros problemas. Ele abriu a janela: as nuvens já tinham passado e o céu azul fazia divisa lá bem longe, no horizonte, com o azul mais escuro do mar. ‘Olha! As nuvens já foram embora, vamos comemorar o seu aniversário!’

Era o sexto aniversário dela com ele e ela sabia o quão feliz poderiam ser juntos. Quantas vezes economizaram na comida para poder rodar de carro até as condições perfeitas de surf e foram abençoados por dias dourados de sol? E quantas vezes ainda remariam lado a lado em silêncio sob a infinita liquidez oceânica? As doces lembranças de água salgada movem a promessa de mais doces lembranças de águas salgadas.  Levantaram.

Todos os aniversários ela pensa sobre o tempo. Uma vida de sorrisos, lágrimas, silêncios, confissões, emoções, felicidades, raivas, abraços, trabalhos, surf e quando se vê passa mais um ano quase tão rápido quanto um respiro. É uma loucura a verticalidade do tempo. Tudo vai acontecendo simultaneamente e é um desafio aprender a lidar com isso e conseguir aproveitar e absorver as oportunidades e os ensinamentos de cada instante.

—  Quero ir a um lugar diferente de tudo.  —  disse ela.

—  Já sei. Hoje podemos ver as ondas em Nazaré — respondeu ele, que já conhecia esse como um grande sonho dela.

Ela não hesitou e percebeu que todo e qualquer resquício de preguiça se fora naquele segundo. Como de costume, foram pelas pequenas estradas que ligam uma cidade a outra. Apesar das autoestradas terem mais infraestruturas, eles sempre optavam pelas rotas alternativas que demoravam mais, mas traziam consigo a sensação de conexão com lugares e visuais secretos que talvez nunca conheceriam de outra forma. Além disso, essas estradas nunca têm pedágios e é mais uma forte razão de escolha.

Era por volta das onze horas e o tempo estava relativamente quente: dezesseis graus, apontava o termômetro do carro, mas em Portugal isso não significa grande coisa, já que em poucos minutos o tempo fecha e depois abre e depois fecha e depois abre e depois fecha de novo. Só uma hora depois e chegaram. Uma cidade completamente diferente de Peniche, lugar que eles vivem. O centro repleto de ladeiras formadas por ruas estreitas de uma espécie de paralelepípedo. Casinhas geminadas em grande maioria da cor branca com detalhes azuis. Sempre bem reformadas e combinando umas com as outras. A beleza surpreendia. Só não mais do que a força das ondas que veriam pouco depois.

Não sabiam andar por ali e nem onde era o famoso farol com vista para as ondas gigantes que tanto se falava no mundo do surf. Foram parar em cima da Praia do Norte, mas mais pro meio. Ele desceu do carro e começou a chamá-la pra ver. Ela saiu correndo e se deparou com uma pessoa surfando a maior onda que já tinha visto na vida. Era do tamanho de um prédio. Uns 10 metros? Talvez. Ela saltitava  pirambeira abaixo até a praia para estar no mesmo nível que o mar e ver sua pequeneza diante da imensidão das ondas. Ele observava o todo de cima e se atentava aos detalhes. As dunas, a correnteza do mar, as ondas assustadoras, a neblina descendo e o tempo esfriando. A magia e a força daquele lugar. Eram sensações indescritíveis ocupando por inteiro o tempo daqueles dois.

O farol que ela tanto sonhava em conhecer era avistado dali, bem no topo de uma falésia que é bombardeada pelas ondas gigantes, no canto esquerdo da praia. Foram até lá. O tempo já tinha virado da água pro vinho. O vento assoprava forte e dava a sensação térmica de Polo Norte. A visibilidade estava péssima devido a neblina que chegou com tudo e ao fim do dia que aos poucos era dominado pela noite. No entanto, eles seguiram descendo pelo caminho de pedra que levava até o farol de Nazaré. O caminho foi estreitando. Muitos turistas de todas as partes do mundo tiravam fotos e iam rapidamente embora por conta do tempo que ameaçava mandar uma chuva daquelas, mas os dois não desistiram. A cada passo as ondas e seu barulho pareciam ficar ainda maiores. E eles estavam cada vez mais perto delas. A maresia começava a bater forte em seus rostos até que se depararam com uma escadinha de metal e cor verde, íngreme e estreita que parecia convidar para enfrentar a morte por meio das ondas que batiam poucos metros abaixo. Ela foi na frente, desceu até a metade e uma massa de água gigante apareceu estourando em meio a neblina. Parecia que ia engoli-la e lançá-la na falésia. Com os olhos fechados, as mão agarradas no corrimão da escada e o coração na boca ela permaneceu imóvel e desesperada. A onda não chegou nela graças a pouca altura que ainda restava, mesmo assim ela decidiu voltar.

— Isso é um perigo! Vamos sair daqui! —  disse, desesperadamente.

Ele sempre preferia observar primeiro a fazer qualquer coisa e fazia isso calmamente. Depois de alguns minutos viram que era só impressão e que era possível descer sem morrer. Era só uma maneira de se conectar mais com aquela energia. Conseguiram chegar ao fim da primeira escada íngreme, mas havia mais um lance que não foram capazes de encarar, porque ali se viesse uma onda maior poderia de levar tudo, literalmente, por água abaixo. Pelo menos foi o que eles concluíram e com medo dessa hipótese permaneceram ali. Ambos ficaram agarrados no corrimão, com as pernas bambas e sentiam a adrenalina pulsar forte em cada miligrama de sangue quente quando qualquer onda se aproximava. Mas, definitivamente não era qualquer onda. Eles nunca tinham visto nada parecido.

Mesmo eles que sempre viram mar como lar, naquele lugar já estavam perto demais e queriam estar realmente seguros da turbulência daquelas águas. Aquela sensação já era demais. Com muita apreensão eles olhavam a série monstruosa entrar. Gotículas de água salgada respingavam neles. Um futuro que poderia se interromper de uma hora para outra se estivessem ali poucos metros para baixo.  Só um lance de escada que dividia a segurança ao pânico da morte. Não se via nenhuma cordialidade naquelas ondas que vinham com tamanha força até explodirem no costão de pedras bem ali embaixo. Aquelas águas eram capazes de levar embora qualquer outro medo que não aquele. Diante daquele lugar sente-se impotência e fraqueza, mas saíram de lá ainda mais vivos.

Voltaram para casa encantados e genuinamente felizes como sabiam que poderiam ser, mas de uma maneira tão única que nunca tinham sentido antes. O futuro se estende e promete infinitas lembranças. Mais muitos anos de vida.

por Mari Broggi

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Autor: origemsurf

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18 Comentários

  1. Nossa! Quantas aventuras únicas vcs estão vivendo! Parabéns por mais um texto lindo e poético, filha! A cada um deles, mais orgulho e saudade!

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  2. oi, nega
    fui contigo pra nazaré e voltei. adorei.
    vibrando com a sua evolução.

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  3. Sensacional Amor! Da vontade de entrar na água e pegar uma daquelas seria a mesma emoção que tive lendo esse texto bj

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    • Mari!!! Vc tá arrasando.Na vida e no texto. Perfeita transmissão.

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  4. Lindo mariana, adorei ❤️❤️❤️mas tem que chegar inteira no trabalho… Não vacila não, as ondas da Nazaré são beijos

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  5. Oi linda, esse sim que é um aniversário:
    Um dia metáfora de uma vida bem vivida: cheia de emoções, percepções, curiosidades, entusiasmos, medos…
    Esperando por mais contos e crônicas de uma vida vivida em plenitude,

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  6. Que texto lindo Mari!!! Parabéns pelo texto e pelo sonho vivido. Beijos desde Itamambuca.

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  7. Muito bom mesmo o seu texto, deu pra sentir a sensação de satisfação que vcs sentiram, e parabéns…

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  8. Amei … que delicia seus relatos❣️
    Parabéns menina tu escreves muito bem !

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  9. por alguns instantes…… consegui imaginar tudo isso na real.
    Parabens

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  10. Que liiiiiindos! Eu amo a energia que vc coloca na sua escrita minha irmã de alma! Que bom que seu aniversário foi maravilhoso. Você merece!! Feliz de ter feito parte desse dia mesmo que por um FaceTime veio! Senti a felicidade e acompanhei você no caminho das ondas gigantes! Mesmo que longe agora, estamos sempre perto, tá ligada! Te amo sempre

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  11. Escrevo músicas e alguns textos também, e fiquei fascinado com este relato. Como amante do mar e crente de que é lá que se concentra a força mais poderosa do mundo, foi impossível não me emocionar e não me transportar através do tempo e espaço, podendo tomar os seus lugares durante alguns segundos, me permitindo sentir a magnitude e grandiosidade do momento. Meus parabéns.

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  12. Mari,
    Que 10 o seu texto!!! Que orgulho!!! Eu tava aflita com a onda chegando… muito real!!!
    Que comemoração!!! Muito a sua cara!!
    Um monte de bjs… saudades…
    Ti’Aninha

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  13. Senti junto! Sensação boa de ler. Muito legal, continue com o bom trabalho ♥️

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