Oi, prazer! 

Me chamo Alexandra. Surfista desde os 4, 5, ou 6 anos de idade. Não lembro ao certo. Comecei com as saudosas pranchas gigantes de isopor, que não encontramos mais tão facilmente, nem nas grandes lojas de departamento do esporte. Fui uma adolescente fissurada pelo surfe.

Peguei muitas ondas junto da minha irmã, sempre estimuladas pelos meus pais, que não pegam onda, mas nos apresentaram esse parque de diversões chamado oceano. Nos proporcionaram diversão absoluta pelo infindável universo da prática.

Por Alexandra Iarussi

Viajei para Costa Rica, três vezes, ao lado da minha irmã. Para surfar. Depois fui para a Califórnia, onde completei, via estrada, o trajeto de San Diego a São Francisco. Pelo surfe. Fui estudar jornalismo, e a fissura pelo surfe era tanta que me levou a bater na porta de uma revista de… surfe.

Tinha 18 anos quando escrevi uma carta para o editor da revista Alma Surf, que assentiu positivamente para um papo frente a frente. A conversa fluiu, e tempo depois, eu iniciava uma trajetória de muito aprendizado e experiências que durou cinco anos. Lá, captei os pormenores de fazer uma revista do começo ao fim. Também me envolvi com festivais de música, arte e cinema, que rolavam todos os anos na Bienal do Ibirapuera.

Conheci ídolos, como o músico e surfista Donavon Frankenreiter; a banda John Butler Trio e o filmmaker Patrick Trefz, citando apenas alguns. Realizei muitos sonhos, como o de trocar algumas palavras com um ídolo, o havaiano Andy Irons (R.I.P), em uma passagem do 3x campeão mundial pelo Brasil. Estávamos em uma churrascaria, era uma dessas situações fora do contexto surfe – não é que eu estava vendo o Andy surfar Pipeline, por exemplo. Me espantei ao perceber como ele era humilde. Apresentou-se, estendendo a mão, “Hi, my name is Andy” (Oi, me chamo Andy).

Trabalhar com surfe tem dessas: sempre existe a possibilidade de esbarrar e trocar palavras com ídolos aparentemente inatingíveis. E tudo flui com uma naturalidade que só vivendo pra crer. Mas isso é assunto para outro texto. Não esse, não aqui… 

Encerrei meu ciclo e fui respirar outros ares: trabalhei em revistas de design e arquitetura. Em paralelo com o jornalismo, sempre fotografei. Desde os 15 anos de idade pelo menos. Primeiro analógica. Depois digital. Adoro as palavras, só que meu coração também é movido por imagens. Amo fotografar tanto quanto amo surfar, e poderia escrever um tratado sobre por quê acho a fotografia tão especial. Mas deixemos isso para outra hora, porque ainda vai rolar muita água e imagem por aqui…

Mudei de rumo novamente: sentia falta de sal no tempero profissional, e fui atrás de maresia na profissão. Uma oportunidade caiu no meu colo: trabalhar como editora online da Revista Hardcore, a única publicação impressa de surfe que sobrou no Brasil, depois que a Fluir acabou. YES, pensei, agora vai! A chance de editar as redes sociais e fabricar notícias de uma revista desse calibre, com 28 anos de história.

Minha experiência durou quase três anos, foram tempos muito felizes. Só que somando meus quase 10 anos de expertise na área, eu não sabia explicar, ainda sentia um vazio, uma inquietação que foi ficando insuportável. Seria a rotina fixa na capital paulista? Os horários que exigem uma redação? A longa distância entre minha mesa de trabalho e o mar? A obrigação de ter de assistir aos campeonatos de surfe? A dinâmica veloz e implacável que se faz necessária quando se trabalha com mídias sociais e precisa soltar tudo para ontem? A busca louca e incessante por cliques, cliques, cliques? Posts para ontem! Timing! Tic tac. Termina o evento! Solta o post!

Eu poderia montar um texto apenas com interjeições profissionalísticas (gente, me deem licença, costumo precisar de licença poética pra viver, imagina só, então, pra escrever). Mas não, não nesse momento, porque tenho algo mais importante para falar para vocês.  

Em janeiro desse ano, eu disse adeus a tudo isso. Muitas pessoas do meu ciclo simplesmente não entenderam a decisão. Confesso que de início, nem eu entendi direito. Afinal, meu trabalho parecia, realmente, ser o trabalho dos sonhos de qualquer jornalista que pega onda. “Você tem liberdade, pode escrever sobre o que quiser, praticamente sem censura, sobre surfe, tudo que você mais ama.”

Assertiva, a minha alma salgada veio com uma resposta definitiva, após uma sessão de surf com uma amiga minha, irmã, daquelas que a gente escolhe, Mariana o nome dela. A gente foi surfar em uma das minhas praias preferidas de Ubatuba. Era segunda-feira, 9 de abril. Uma manhã silenciosa. Céu azul e sol. Liberdade? Eu tergiversei em pensamento: se minha alma falasse, cantarolar ela ia: “Liberdade é poder surfar tranquila em uma segunda-feira, caro(a) leitor(a).”  

feeling good….