“O que podia, com razão, ter preocupado meu pai era o tipo peculiar de monomania antissocial e exagerada que um compromisso sério com o surfe quase sempre envolvia… O novo ideal emergente era a solidão, a pureza, ondas perfeitas longe da civilização. Robinson Crusoé, The Endless Summer. (…) Não era o devaneio do vagabundo feliz. Era mais profundo. Perseguir ondas com dedicação era algo fundamentalmente egocêntrico e ao mesmo tempo abnegado, dinâmico e ascético, radical em sua rejeição dos valores do dever e das conquistas convencionais.”

Por Juliana Calderari

Li este parágrafo pela primeira vez na sala de espera de um hospital. Estava na reta final do meu tratamento (ia encarar as 26 sessões de radioterapia)  e achei uma boa levar comigo um livro sobre surfe para amenizar a coisa toda e me lembrar do lado bom da vida.

Nos cerca de oito meses que antecederam aquele momento, enquanto passei por quimioterapia e cirurgia, eu vinha questionando minha fissura com o surfe.  Jantar romântico? A resposta era: “Peraí, vou checar a previsão. Se tiver onda, acordo super cedo e aí não dá”.  Da mesma forma, passear, encontrar os amigos, ver a família, tudo dependia do swell.

Eu vinha me sentindo culpada pelo meu comportamento nos últimos anos, mas quando eu li esse trecho aí acima, senti um alívio imenso. Afinal, eu não era a única.

É óbvio que eu não era, não sou e nunca serei a única, mas não é sempre que a gente encontra alguém com habilidade para descrever isso como fez o jornalista americano William Finnegan em sua autobiografia “Dias bárbaros”.

Colaborador da revista The New Yorker, ele levou o prêmio Pulitzer – que é uma espécie de Oscar do jornalismo – por esse livro, que eu classificaria como uma obra-prima do surf.

William Finnegan surfando Cloudbreak. Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação

Em 432 páginas, Finnegan  conta como foi sua infância nos anos 60, passada entre a Califórnia e o Havaí em cima de pranchões; a revolução do surfe – e da juventude – que na década de 70 adotou as pranchinhas e o lema “Sexo, drogas & Rock ‘n’ Roll; a luta contra o apartheid na África do Sul, em meados de 80, só para mencionar alguns momentos.

Além de contar como foi ter surfado sozinho picos que hoje são infernalmente crowdeados  na Indonésia, em Fiji e na Austrália, e ter desbravado mares lusitanos – quando a única Nazaré conhecida ficava na Galiléia – o jornalista descreve com muita destreza coisas bem comuns na vida de quem é fissurado, e é exatamente isso que torna o livro tão incrível.

Finnegan convive com a dúvida entre entrar em tubos incríveis ou entrar pelo cano com as namoradas, a culpa por não estar com a família tanto quanto ele acha que deveria e a dificuldade para  se manter enquanto viajava e fazia o que mais amava. Se hoje em dia isso já é difícil, imagina quando nem havia internet e a possibilidade de trabalho remoto.

Esse último ponto conectou ainda mais a história do americano à minha própria vida. Saboreei suas roubadas pelo mundo lembrando das minhas.

A luta para pagar o aluguel na Austrália, a força-tarefa que eu e amigos criamos, com a ajuda de pilotos de uma cia área, para achar ondas no Oriente Médio quando tínhamos uma folga, as madrugadas em que passei trabalhando no Norte da Espanha para compensar “as reuniões” no mar no horário comercial, as vídeoconferências feitas pelo Skype da praia do Rosa (SC), em que eu vestia uma roupa de trabalho da cintura para cima e neoprene de inverno da cintura da baixo…

Viajei nos dias bárbaros de Finnegan e nos meus e, feliz da vida, terminei meu tratamento com a certeza de que eu estava liberada para voltar ao meu “egoísmo surfístico”, o que eu fiz em pouquíssimo tempo.

Infelizmente, o que era bom durou pouco e, entre quedas nas minhas praias favoritas de Ubatuba (SP), meu atual endereço, já voltei pro banco da reserva por causa de uma lesão no joelho. Que ao menos eu tenha novamente a sorte de ter a boa companhia de um livro como esse.

 

O autor Willian Finnegan

Editora Instrínseca. Livro R$ 59,90, E-book R$ 39,90.