Lá vamos nós.

Quando aceitei o convite para participar desse blog, combinamos que eu falaria sobre audiovisual no surfe. Como fotógrafa e aprendiz de filmmaker, acatei no ato. Desta vez, resgato uma temática diferente. Receio que possa acontecer outras vezes, mas, vamos lá, o desafio é manter-se no presente. Peço permissão, caro(a) leitor(a), para remar em um assunto que toca meu inconsciente de surfista fissurada: as piscinas de ondas artificiais.

Por Alexandra Iarussi

Muito se falou e foi visto desde que rolou a Founder’s Cup. Para quem não acompanhou, o evento, realizado no final de semana dos dias 5 e 6 de maio, no rancho de ondas perfeitas criado no meio do deserto de Lemoore, Califórnia, pelo 11x campeão mundial, Kelly Slater. Essa foi a primeira competição entre países na história da World Surf League – a Liga Mundial do Surfe, entidade que rege o surfe competitivo profissional. O Time Mundo, formado pelo sul-africano Jordy Smith, mais a compatriota Bianca Buitendag, a neozelandesa Paige Hareb, o taitiano Michel Bourez e o japonês Kanoa Igarashi, foi o vencedor, seguido pelo Time Brasil, que ficou com o vice, com os representantes Filipe Toledo, Gabriel Medina, Silvana Lima, Adriano de Souza e Tainá Hickel.

Mas os resultados, nesse contexto, são detalhes. Hot news que já virou cold, cold. Prossigamos…

No mesmo final de semana da Founder’s Cup, uma outra onda, também artificial, também mecanicamente perfeita, roubou a cena na grande rede. Trata-se da Waco, no Texas, cortesia tecnológica da American Wave Machine – AWM – lançada por seus criadores no fatídico final de semana da copa do mundo do surfe nas ondas artificiais do Slater.

No site da companhia, lê-se: “A American Wave Machine é focada na evolução da tecnologia de ondas artificiais e em promover acesso ao surf aonde literalmente ele não chega. Com muitos testes, incrementos de escala e engenharia de alta confiabilidade, a AWM proporciona experiências de qualidade e memoráveis para surfistas de todos níveis de experiência.” Mais adiante, lê-se que uma das tecnologias da piscina é a PerfectSwell, capaz de “imitar as dinâmicas do oceano, e proporcionar infinita variedade de ondas sem espera. Tipo de onda, tamanho, duração e período, podem ser controlados ao toque de um botão.”

Juro que reli algumas vezes a frase “imitar a dinâmica do oceano”. Tudo bem, entendi que, de certa maneira, no contexto da situação, realmente, a onda pode ser configurada para ser perfeita e tubular, imitando ondas de pico, que costumam formar tubos mais cascudos, ou até mesmo fechadeiras, sendo assim boas para os treinos de aéreos, por exemplo. Mas… céus! “Imitar a dinâmica do oceano!” – é tipo brincar com Netuno, Iemanjá e Poisedon de um jeito muito travesso!

Acima, cenas da piscina de Waco, no Texas.

Shazam!!! Parem as máquinas!!! Ou melhor, não parem!!! Apertem o botão, e… voilà: esqueça dos tubos espremidos de Lemoore. A nova Eureka do futuro do surfe já é presente: imagina só, Waco a la Puerto Escondido? Waco a la… Jaws? Bem da verdade, é que a formação das ondas de Waco, pelo que se vê convertido em milhões de pixels distribuídos em tela cheia, parece ter mais potência que a do Rancho de Slater – com perdão, Mãe Oceano, mas de alguma maneira ela parece ter um quê mais de oceânico mesmo.

Acima, os melhores momentos do Time Brasil durante a Founder’s Cup, realizada no rancho de ondas perfeitas criado por Kelly Slater em Lemoore, na Califórnia.

 

Não é hora para tira-teimas a respeito de qual piscina de ondas é a melhor – aliás, está aí bom assunto para uma enquete. Também não é foco, aqui, levantar os 1001 desdobramentos na indústria e na evolução de performance a partir daí, mesmo sendo esse um assunto legal.

O que provoca meu âmago não é o esforço sobrenatural que faz a Liga Mundial de Surf, em desespero para monetizar o Tour, tomar medidas como a de cobrar milhares de dólares (que, convertidos em reais, ultrapassam os 30 mil) para que alguns poucos privilegiados assistam a Founder’s Cup in loco. O cerne da questão, toda essa história das piscinas de ondas artificiais, a meu ver, tudo isso tem a ver com a indústria do surfe, e não com o surfe em si. Embora pareça, a princípio, obviedade anunciada, acho importante que seja bem feita essa distinção.

Partindo desse raciocínio, involuntariamente rebobinei meu HD: lembrei de uma entrevista que fiz há alguns anos com o escritor (e também surfista) Lewis Samuels. O assunto não era piscina de ondas, mas desigualdade de gênero no surfe. Foi tão certeira a linha de raciocínio de Lewis, tão coerente com o assunto das piscinas, pelo menos na minha cabeça, que achei justo o resgate.

Lewis, californiano, é um cara emblemático no jornalismo de surf. Era ele quem escrevia os Power Rankings do Surfline.com – sem filtros, colocando literalmente a cara a tapa com críticas honestas. Em seu extinto blog, Postsurf.com, Lewis causou alvoroço com críticas ácidas, humor irreverente e sinceridade escancarada.

Para Lewis, o surf e a indústria são coisas distintas. “O ato de surfar ainda pode ser utópico quando restringido à experiência pessoal. Mas, quanto mais interligado é o ato de surfar com a indústria do surf, para qualquer indivíduo, menos perfeito se torna o ato. Então, quando falamos a respeito do dinheiro de patrocinadores em um evento da WSL, claro, tudo se resume a ‘dinheiro’, política e poder… Assim como qualquer outra atividade comercial”.

Na mosca, Lewis! Tanto, que me deu vontade de parafrasear: “O ato de surfar pode ser utópico quando restringido à experiência oceânica. Mas, quanto mais interligado é o ato de surfar com a piscina de ondas, menos perfeito se torna o ato.”

De fato, o surfe na piscina de ondas já não é mais surfe. Torna-se outra coisa. Reconhecer isso nada tem a ver com não reconhecer o fato de que as ondas artificiais podem trazer progressos de performance nunca antes vistos, enfim, que nasce daí outra modalidade de surfe, um milhão e meio de manobras; grommets proferindo manobras alienígenas; mais dinheiro movimentando a indústria – ainda mais com surfe na Olimpíadas de Tóquio 2020.

Calma, a gente chega lá…

A ARTIFICIALIDADE DOS CAMPEONATOS

Enquanto nadava nessa ideia, me deparei com um texto, do jornalista Stu Nettle, no Swell.net (clica aqui pra ler), no qual ele comenta sobre as piscinas da ondas artificiais e aborda uma das faces da indústria: “O surf profissional é uma besta estranha. Tanto atrai quanto repele seus constituintes mais core. Durante 30 anos, as corporações sustentam o esporte: pranchas, camisetas, bonés, propagandas… Sem essas empresas, não haveria campeonatos. Além disso, o surfe profissional deu a essas empresas um ponto no qual se fixarem. Atribuiu importância para performance; você pode desgostar do formato, mas aprecia performance. Sites e fóruns crescem a partir desse paradoxo. Formou-se uma espinha dorsal na cultura do surfe. Suspeito, porém, que essa característica pode se perder com a piscina”.

O jornalista prossegue: “Lendo algumas críticas na internet, percebi que o surfe na piscina de ondas estava sendo pintado como algo que de certa maneira representasse a prostituição do surfe, enquanto o surfe competição seria o elixir do surfista de alma. O que na verdade é absurdo, porque não há nada natural em boias de prioridade, estratégias de bateria, e camisetas amarelas para líderes do ranking. O que acho que de fato provoca a ira de muitos é o fato de os campeonatos de surfe serem removidos do seu lugar comum; lugares que todos podem visitar e, de certa maneira, se relacionar. Kelly Slater admitiu que a piscina é uma motivação egocentrada – entenda: tenha dinheiro, faça um tubo. Fazer isso de maneira privada, tudo bem. Mas as piscinas de onda chegam despejando perfeição e artificialidade em uma cultura antiga, usurpando a convenção e a tradição, tornando estranho o esporte que conhecíamos. Sem forecast, nada de checar o surfe, não há séries, nem sorte e tensões arrebatadoras, muito menos vantagens dos nativos adquiridas durante incontáveis horas dedicadas ao oceano.”


JOHN SEVERSON E UM PARADOXO

Todos os pontos foram interligados quando me deparei com uma rara entrevista do californiano John Severson (assista no vídeo acima). O ano era 1972; pela Australian TV. Em determinado momento, ele discorre sobre a essência do que é o surfe. Severson foi um dos pais da cultura do surfe. Ele faleceu em 2017, aos 83 anos. Criou, em 1962, a revista norte-americana Surfer; documentou o surfe e seus momentos com livros, fotos e filmes – como o psicodélico Pacific Vibrations, que o próprio caracterizou como uma expressão de seu amor pelo oceano e mais de 20 anos de devoção.

No vídeo, o entrevistador pergunta a Severson se há espaço para o surfista profissional. Severson responde:

“Bem, depende de como são as coisas na prática. Se houver regras claras e regulamentações, é, com certeza, uma situação paradoxal. De um lado, você pede ao surfista para que performe de determinada maneira para que ganhe algo em troca. Mas acontece que toda a ideia por trás do surfe é liberdade e portanto fazer o que você quer fazer. Agora, se é possível lidar com isso de determinada maneira, relativamente livre, acredito que o circuito de surfe profissional guarda ótimas possibilidades.”

Tomei as palavras do mestre (que por sinal convergem com as do jornalista Stu Nettle), para fazer uma analogia com o assunto das piscinas de onda. Equacionando o raciocínio, se o surfe tem a ver com ser livre, nada tem a ver com campeonatos. Muito menos com piscinas de ondas, que vejo mais como a evolução materializada de uma cultura tecnológica que fabrica tudo em 3D. Não precisa nem pegar um tubo fabricado para saber que a mais verdadeira excitação, o sentimento de delírio que remete o surfe, não pode ser comprado, nem construído, nem engarrafado… Ele ainda resguarda no epicentro do descontrole e ordem da Mãe-Oceano.

Mesmo assim, caro(a) leitor(a), não escondo: adoraria surfar uma onda perfeita artificial algum dia.