O sol saiu e não há sequer uma nuvem no céu. O vento é quase imperceptível e a previsão das ondas informa que a ondulação continua com força. Assim, surge uma certeza: está clássico.

O termo “clássico” é usado entre nós surfistas com frequência para definir o momento em que as condições estão  perfeitas para a prática do surf. Ou seja, quando ondulação; direção do vento; período e frequência das séries e a formação das ondas estão em plena harmonia.

Hoje, para completar, o clima está ótimo. O sol está radiante e não há nada por perto capaz de ameaçar essa beleza de domingo. O único problema de toda essa história linda é que a quase dois meses eu torci meu joelho enquanto surfava.

Era 28 de junho e na ocasião eu treinava para o evento que marcaria minha participação como competidora, depois de anos sem surfar uma bateria. Confesso que andava nervosa e sonhando com a possibilidade de fazer final.

Com pouco mais de meia hora na água, dropei minha terceira onda,  uma esquerda que parecia oferecer uma bela parede ou até um tubo, quem sabe. Remei e entrei na onda já me preparando para colar meu corpo junto à parede de água e só esperar o lip rodar sobre a minha cabeça.

Nada disso. Na cavada já sinto meu joelho girar para frente. Caio da prancha na imediatamente. Saio carregada do mar. Alguns curiosos se aproximam. Não, na verdade são amigos de longa data. Me desejam melhoras. Tudo passa rápido a e dor faz com que eu sinta um desejo incontrolável de gritar, mas me silencio.

A partir daquele momento já se vão dois longos meses longe da água. No início, não dei tanta importância, pois apesar da dor, o joelho não inchara. Cuidei, fiz gelo, choque térmico, passei pomada e tomei analgésicos. Porém, nada adiantou. Finalmente, tomei vergonha na cara e fui ao médico.

“Se eu não estou enganado você sofreu uma lesão de grau dois, no ligamento interno do joelho. Este aqui”, aponta o doutor. “Mas precisaria fazer uma ressonância magnética para ter certeza”, continua ele, enquanto segura um joelho de resina e PVC e eu só conseguia pensar no preço do tal exame.

Essas horas me lembro o quão ruim é não ter um plano de saúde ou não poder contar com a saúde pública da minha cidade. Me recuso a desembolsar mil reais num exame de imagem e ter que viajar para isso torna a tarefa ainda mais árdua.

A cidade que escolhi viver não tem condições de oferecer um simples exame de imagem, além de outras coisas muito mais importantes como uma UTI, por exemplo. O principal hospital da cidade é filantrópico, o que significa não haver uma instituição própria do município.

Ironias em pauta, essa semana a prefeitura anunciou investimento de 10 milhões de reais em um “Hospital” dos animais marinhos. Eu amo os animais, não me leve a mal. Só penso ser muito nonsense dar aos animais, o que não se oferece aos homens, é lamentável a ausência de semancol desse pessoal da política.

Então, seguimos com nossas doses de descalabros diárias, vestindo os óculos do “não é comigo”, “é tudo igual”, ou “o Brasil nunca vai mudar mesmo” e voltamos ao que interessa aqui: meu joelho machucado.

“A notícia boa é que este tipo de lesão não necessita de cirurgia”, garantiu o doutor. Ufa! Menos mal. Deixava o consultório e antes que eu pudesse me lamentar de qualquer coisa, dei de cara com um senhor de muletas a minha frente. O semblante cansado do homem indicava dor e sua condição não se comparava a minha.

Entrei no carro e agradeci, coisa que ando fazendo com frequência. Agradeço a tudo, inclusive aos episódios mais difíceis da vida ou qualquer outra dificuldade boba que possa surgir. “Vai ficar tudo bem, logo volto a surfar e a viver sem dor novamente e agradeço por isso”.

Agradecer tem sido uma espécie de cura já que sempre fui muito realista e as doses de verdade são capazes de minar minhas energias, resultando em baixo astral, pessimismo, como queira.

Assim, minha mente parece ter criado uma força para combater um possível e temível ciclo vicioso: realismo, pessimismo, queda de energia, depressão. Logo, agradeço a tudo e mudo o foco dos meus pensamentos, faço respirações profundas e automaticamente as coisas melhoram. Tem sido assim.

Apesar do esforço em ver o lado bom da vida e todo o bem-estar que esta recente dinâmica tem feito ao meu corpo e mente, não há como deixar de se lamentar com um domingo desses. O surfe está clássico e eu não vou surfar.

O coro do meu lamento aumenta a medida que a dor do joelho está de volta, afinal já se foram os dez comprimidos de analgésico e de brinde ganhei uma dor de estômago. Mas, tudo bem, agradeço por isso também.

Dias melhores virão e viva o surfe!