Por Janaína

Morar na praia tem dessas maravilhas, acordar segunda-feira, trabalhar até meio-dia e surfar no melhor momento da maré. Só vim aprender mais sobre a influência da maré no surfe após passar alguns anos acordando supercedo, achando que estava arrasando, ou pior: me culpando por não ter acordado e ter perdido o melhor momento do dia.

Antigamente, acordar bem cedo significava surfar sem ninguém na água (como o surfe é um esporte individualista), com o efeito Medina e a massificação do esporte o privilégio foi para as cucuias e por incrível que pareça, seis da manhã se tornou o horário de rush do surfe.

Ainda morava em São Paulo quando acordava cansada quase todas as segundas-feiras depois de ter sofrido de um misto de tristeza e preguiça ao subir a serra e pegar trânsito, ainda mais se o domingo estivesse sido de altas ondas e, frequentemente, era. Só restava o desejo e a espera, muitas vezes sem respostas, de quando e como finalmente eu conseguiria realizar o sonho de morar na praia.

Certamente seria bom ou no mínimo melhor que morar na capital poluída e barulhenta, mas nunca imaginei ser tão maravilhoso! A proximidade com a Natureza todos os dias, e isso vai muito além do surfe, trouxe um bem-estar perene. Nem a turma do novo Governo é capaz de abalar, nem a TPM, nem a falta de opções de cinemas e exposições, nem uma edição voraz no seu texto, nem a chuva que as vezes parece não ter fim, nem os mosquitos, nem o acesso de buracos misturados a falta de estrutura da cidade. Nada tira a paz quando se tem em vista montanhas enormes cobertas por centenas, milhares de espécies da Mata Atlântica.

Remada no canto esquerdo de Itamambuca. Foto Filipe Burjato.

Ontem enquanto surfava no canto esquerdo de Itamambuca tive dificuldade para me concentrar tamanha a exuberância da mata, essa mistura de verde do mar, azul do céu, as pedras, tudo tão sólido, tão fixo, tão imponente e tudo tão pertencente àquele cenário. A única estranha ali era eu, mesmo percebendo minha finitude, me sentia acolhida.

A natureza tem essa capacidade de acolher, acalmar e fazer vibrar sentimentos de paz e de cura dentro da gente. Não saberia dizer o que seria de mim não fosse o mar, não fosse a paixão por este esporte que me obriga, no melhor sentido do verbo, fazer parte desse universo mágico.

Segunda, terça, quarta, feriado, férias, Natal, réveillon, todo dia, toda hora é hora de cair na água e fazer a cabeça…

 

Nota: corre lá no site da revista Trip, tem a história de um dentista brasileiro, que motivado por sua paixão pelo surf decidiu investir em um novo formato de viagens de surfe.