“Você viu aquela série cabulosa? O swell encaixou direitinho, juntou com a formação da bancada rasa e deu nisso, altas ondas”

Pois é leitor, não há mal nenhum se você não entendeu muita coisa sobre a frase acima. Afinal, o vocabulário usado entre surfistas é no mínimo peculiar

Quando comecei a surfar alguém me contou sobre a piada do surfista, que basicamente reproduzia a fala de dois surfistas durante uma conversa pouco profunda sobre as condições do mar. Em seguida, surgia um terceiro elemento no bate-papo dizendo algo como “E aí, beleza?” e imediatamente era acusado pela dupla de querer mudar de assunto, dando a entender que surfista é uma espécie de ser monossílabo.

Uma piada rasa, mas que de certa forma expõe a falta de interesse, não só dos surfistas, mas da maioria dos brasileiros por cultura, leitura, filosofia, etc. Apesar da mudança de perspectiva a respeito da imagem do esporte, já que os adjetivos de “drogados, vagabundos e burros” hoje cedem espaço a elogios como “descolados, atraentes e conectados com a natureza“, ainda parece tímida a corrente de surfistas intelectuais.

Para ajudar, a estrutura sócioeconômica do país se baseia há séculos em um preceito que relaciona diretamente classe social privilegiada à educação de qualidade, ou o inverso. A cara de pau chegou a tanto, que essa semana os jornais estamparam uma fala do atual Ministro da Educação em que fica escancarada a crença em tal dinâmica.

Uma pena. No meu mundo educação deveria ser um princípio básico assegurado a todos, independente de históricos bancários, mas o interesse em manter as estruturas motrizes de manutenção de privilégios versus a subordinação segue sem novidade. Velha sistemática.

Enquanto isso, nós surfistas somos acusados de “poucas ideias”, não me parece justo. Então, vamos ao que interessa?

  1.  Altas ondas: o termo quer dizer que o mar está para peixe, ops, para surfista. As ondas estão boas, mas não necessariamente grandes;
  2. Flat: muitos termos do dicionário do surfe são da língua inglesa por uma razão óbvia, já que a modalidade foi difundida em territórios explorados por ingleses ou norte-americanos. O flat quer dizer plano, liso. Ou seja, nada de ondas, sem condições para a prática do esporte;
  3. Terral / maral: muito falado entre os surfistas estes dois termos referem-se à direção do vento. O primeiro sopra da terra em direção ao mar, e o segundo o oposto. O terral é preferência de 90% dos surfistas do planeta;
  4. Direita / esquerda: calma, não estamos falando de política, no surfe os termos são usados para indicar a direção em que a onda está quebrando, sob a perspectiva do surfista (de “costas” para o mar e de “frente” para a terra);

    Aqui eu surfo uma esquerda e já que sou goofy estou de frontside…eita!

    Fi preparando uma rasgada de frontside em uma direita, afinal o mozão é regular. Foto Jacobino e Sandra Greghi

  5. Goofy / Regular: esses nomes estranhos (goofy=pateta) denominam a posição dos pés (a base) do surfista na prancha. Vale dizer que isso não varia, ou seja, uma vez Goofy para sempre goofy. O surfista regular surfa com o pé esquerdo na frente e vice-versa.
  6. Backside / Frontside: se sua cabeça não deu um nó até agora, prepare-se para a prova de fogo. Em uma esquerda, o goofy surfa de frontside, já em uma direita o goofy surfa de backside. Entendeu? Se sim, você deve ter um bom Q.I. senão está tudo bem, o troço é confuso mesmo. Para simplificar basta dizer que backside é quando se surfa de costas para a onda e frontside de frente.
  7. Merreca: não chega a ser flat, mas está quase lá; a merreca nada mais é do que uma onda bem pequena;
  8. Backwash: movimento de água que resulta em um tipo de refluxo (vai e vem);
  9. Vala: onda

por Janaína