O lado B do Quiksilver Pro Gold Coast

Acabou. O Quiksilver Pro Gold Coast 2019, QuikPro para os íntimos, já vai e deixa saudade.

Foi com ele que pulei de alegria ontem. Ainda gritei algo do tipo “caralho, poooooorraaaaaaaa é Brasil! E mais um ou dois “caralho!”, não me lembro.

Confesso que já tinha jogado a toalha e dado como certa a vitória do adversário. Como pude? Como pude duvidar da audácia de Ítalo Ferreira?

Se aprendi alguma coisa com o evento inaugural desse ano foi jamais desistir de Ítalo.

Vale uma pausa para mencionar que posso imaginar como doeu em Kolohe Andino. O norte-americano que jamais venceu uma etapa do CT e pior ou melhor, não sei (depende do ponto de vista), foi vice uma porção de vezes.

Dizem as más línguas que Andino cresceu sob a terrível pressão de se tornar o próximo Kelly Slater. Agora, me diga, por favor; o que pode ser mais cruel do que viver com a missão de ser onze vezes campeão mundial?

Além do mais, você precisaria ter fumado um baseado com ninguém menos que Gisele, deitado nas areias de Pipeline ou qualquer outro paraíso, criado uma onda artificial perfeita, comandado a marca mais inovadora e incrível do segmento e ah, claro, namorar a Pamela Anderson da década de 90. Tá fácil.

Aliás eu tenho uma tese bem sombria sobre a verdadeira natureza de Slater. Acredito que ele seja um ciborgue criado pela N.A.S.A e que a calvície seja um “defeito humano” implantado (desculpe o trocadilho, juro que foi sem querer) no hardware do robô para despistar suspeitas sobre sua verdadeira identidade.

De volta à Austrália. Eu teria tido certa compaixão por Kolohe caso ele estivesse concorrendo com qualquer outro nome do Brasil. Ficaria feliz obviamente com a vitória de um conterrâneo, mas assumiria certa tristeza pelo fadado ao eterno quase-lá, Kolohe Andino.

Mas era Ítalo, o menino-pássaro. Ou já seria mais apropriado dizer o homem-águia? Então, não teve como. Foi demais, emoção pura, lindo. Kolohe, quem?

Pérolas da transmissão

Se no mar a vitória foi indiscutível e portanto não há mais o que escrever sobre o caso, por que não falar sobre alguns deslizes da transmissão?

As etapas do circuito principal da liga mundial são transmitidas de diversas formas, ou melhor, em diversas plataformas. Contrariando a era streaming, 2019 marca a parceria da Liga com FOX Sports que celebra a transmissão de mais de 500 horas de conteúdo da WSL no canal.

Por aqui, não se sabe se um dia haverá acordo parecido, mas caso haja que conte com mulheres na transmissão das performances femininas.

É muito chato, como mulher, ser obrigada a ouvir comentários do tipo “o surfe feminino era monorrento (sic)”, como disse ontem (07), um dos narradores.

Meu Deus, afinal de contas, que droga de palavra é essa? Neste momento sou obrigada a abandonar a transmissão em busca de papel e caneta. Então, anoto a frase inteira; “o surfe feminino era monorrento (sic), as mulheres surfavam muito mal”.

Hoje descubro que na verdade essa palavra não existe, mas sim o adjetivo “modorrento”, com “d” e não “n”. De acordo com o senhor Michaelis quer dizer duas coisas:

01) Que sente modorra; sonolento.

02) Que demonstra pouca esperteza; estúpido, parvo.

Além de extrema falta de sensibilidade devo acusar tal comentário de distraído, errôneo, inapropriado.

Medina é você?

Não deixaria de terminar esse post sem comentar sobre o fenômeno brasileiro, Gabriel Medina e sua performance nada comum contra o afiado Jordy Smith.

Os dois que já protagonizaram cenas de treta fora das competições se enfrentaram dessa vez em nome da profissão.

“Medina está quieto” disse um dos comentaristas; enquanto o outro arrisca dizer que pode ser um erro estratégico do brasileiro já que “Deeba” (apelido de Duranbah Beach) exige mais dinâmica de posicionamento.

“Devagar”, “cansado”, “apático” foram também outros adjetivos que os narradores encontraram para explicar a performance nada usual de Medina.

Conclusão? Todos temos dias ruins, até Medina.

Sobre a decisão feminina

Lindo, maravilhoso, belezura de assistir. As mulheres estão dando um show de surfe a cada evento e isso é uma maravilha.

Caroline Marks é sem dúvida uma aposta para vencer em breve um “circuito inteiro”. Carissa Moore é magnífica e Sally parece ter mais energia hoje do que no auge da adolescência.

O único defeito, se é que podemos chamar assim, é a escassez de surfistas brasileiras.

Que venha Bells!

Pódio da primeira etapa do tour mundial; foto WSL / Kelly Cestari.

Kolohe Andino (EUA), Italo Ferreira (BRA) Caroline Marks (EUA) e Carissa Moore (HAV).

por Janaína

Autor: origemsurf

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3 Comentários

  1. Boa tarde.
    Por que não unir as categorias?
    Qual a justificativa para a separação entre homens e mulheres?
    Por ser julgado pela técnica, não me parece haver qualquer vantagem nos homens que justificasse essa separação.
    Obrigado

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    • Oi, Luiz, boa tarde. Interessante seu comentário, fiquei pensando aqui qual modalidade esportiva inclui ambos sexos em uma competição mútua e não encontrei uma resposta. Acredito que a questão não precisa ir a tal ponto, mas o que eu tentei trazer com o texto foi a falta de sensibilidade de alguns locutores brasileiros ao se referirem às performances femininas. Acredito que comparar homens e mulheres já seja um engano. Deve-se também levar em conta o contexto histórico em que as surfistas fizeram e fazem parte, durante toda a história do surfe profissional. Obrigada pela mensagem!!

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    • luiz,
      se atleticamente o corpo nao fizesse diferenca, por que os surfistas profissionais fazem tantos exercicios fisicos fora da agua?
      hormonios e fazem, sim, diferenca na hora de ter forca muscular p ganhar velocidade, e mesmo p ter agilidade…
      o q vc pede eh o mesmo que dizer q o volei deveria ser misto pq ha mulheres tao altas quanto homens…

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