Nós surfistas somos um tanto insuportáveis. Antes de me apedrejar, por favor, peço que me dê uma chance para explicar.

por Janaína Pedroso

Em primeiro lugar, dificilmente estaremos livres de uma espécie de infortúnio, que também pode ser vista como redenção. A verdade é que ao se tornar surfista (de corpo e alma) estamos, muito possivelmente, condenados a nunca mais sermos quem quer que tenhamos sido antes da tal picada do “mosquito do surfe”. Sim, tal fenômeno assemelha-se a uma contaminação.

Então nos tornamos felizes, porém chatos. Nada mais na vida tem tanta emoção e prazer quanto o surfe. As horas do dia passam, e se estamos longe do mar tudo o que pensamos é: quando vou colocar novamente meus pés na prancha? 

Assuntos de interesse resumem-se à próxima viagem. Por favor: não me venha com lugares sem onda! Ondulações à caminho, e até a mais recente farra do campeão mundial nos interessa. Assim, a chatice não tem fim, à medida que nos tornamos seres monotemáticos. Quase nada fora do universo salgado nos interessa mais. Fato este que pode representar um enorme perigo, à propósito.

Somos egoístas. Tentamos disfarçar ao compartilhar uma onda, nos controlamos para não remar em todas as possíveis. Mas o que queríamos mesmo era o mar e todas as melhores ondas da série para nós, mais ninguém. Amigo, namorado, ex, tudo vira um bando de gente incômoda que está lá no fundo pra atrapalhar, arruinar seu surfe, que aliás tinha tudo para ser perfeito, não fosse o maldito crowd! (Nos enganamos muito).

Somos vaidosos. Cuidamos do corpo, talvez por estarmos seminus na maior parte do tempo, talvez por precisarmos de tudo fortalecido para que o surfe não seja cruel e as lesões permitem sermos ainda mais chatos. Além disso, adoramos um fotógrafo na areia, queremos aparecer no Instagram, fazer stories contando que o mar estava clássico.

Somos mestres na arte de ‘lorotear’. Conhecemos todos os picos e direção de swell, contamos vantagem, um ‘chapéu’ vira o tubo da vida num piscar de olhos. Adoramos nos vangloriar para os que não surfam e veem na gente figuras quase míticas. 

Somos um tanto frustrados. Não há sequer uma semana, temporada ou dia em que uma sessão de surfe (mesmo que por alguns momentos), não possa se tornar algo surpreendentemente desapontante. Uma dor no ombro, medo, falta de talento, ansiedade, ausência de paciência, uma arrebentação desumana. Tudo isso é capaz de nos arruinar e fazer com que, por alguns segundos, odiemos o que mais amamos fazer.

Chatos, egoístas, vaidosos, mentirosos, frustrados. Mas isso é só a menor parte de nós. Topamos lidar com tudo isso porque a outra parte é paixão, tesão, vício, amor e condição de sobrevivência.

Sim, somos chatos quando falamos sem parar sobre surfe com quem nunca pegou uma onda decente. É verdade, para quem nunca teve o prazer de ser acolhido dentro da morada mais divina, o tubo, somos um bando de egoístas. 

Sim, vaidosos. Aos que jamais entenderão o que é sentir a magia de estar no outside e ser beijado por uma brisa suave, o vento terral, ver linhas perfeitas e intermináveis, fazendo com que a gente se sinta meio semideus, semideusa. Afinal, somos parte daquele sagrado. 

Ou pra quem jamais fez uma viagem de surfe e pôde mais tarde reviver aqueles dias, que serão passados às nossas próximas gerações: olha a vovó em G-Land, esse dia estava cabuloso, minha netinha. 

Mentirosos talvez, mas mentimos para nós mesmos. Isso porque a sensação é de tamanha magia, que não há nada mais estarrecedor do que ver um vídeo seu surfando pela primeira vez: jura que foi só isso? Na minha cabeça tinha sido um ‘rasgadão’! Ou seja, não mentimos por mal. 

Sim, o surfe pode ser frustrante, mas faríamos tudo de novo e seremos eternamente gratos por quem quer que seja que tenha nos colocado nesse templo tão poderoso e contraditório.

Meu “quase-tubo” que eu vou enquadrar e mostrar aos netos um dia…

Galeria de fotos (Filipe Burjato e Ana Clery)

Janaína veste a.Mar Bikinis