Surfar grávida, pode?

Então, grávida. Aos 36 anos e hoje com 21 semanas de gravidez, dou conta de que estou realizando um sonho

por Janaína Pedroso

Tornar-me mãe foi um desejo que ficou adormecido por alguns anos, por inúmeras razões: não tinha, até então, o companheiro ideal, a idade permitia esperar ou a grana era curta, e até o ritmo e rumo do mundo desanimava. 

Agora o surfe tem outro propósito: deslizar, fluir, sentir; apenas. Foto Patricia Vaccarezza / @pato.vacc / @pato_vacc

Seria justo colocar um ser nesta caótica humanidade, que aparenta estar cada dia mais nonsense

Assim, fui assimilando a ideia de que talvez não fosse jamais passar pelo processo de gerar um filho.

Rodeava-me de maneiras para que essa não-maternidade fosse justificada de forma tranquila:

“Está tudo bem, caso queira mais tarde posso adotar”, “A vida está boa, não me falta nada”, “A sociedade cobra demais a mulher, talvez essa vontade que sinto, nem seja tão minha assim”…

Mas como dizem por aí: quando é pra ser não tem jeito. E foi. A barriga já aponta e hoje vivo meu momento mais feliz. Afirmo isso sem medo. E claro, tenho o melhor parceiro do mundo disposto a dividir comigo essa missão gigante!

Contudo, imaginava como seria abrir mão da minha liberdade de ir e vir, ficar sem surfar, justo agora que eu estava evoluindo… Por quanto tempo me afastaria do esporte que mais amo?  

Realmente, o surfe, que é minha válvula de escape, diminuiu no início da gestação. Na verdade, não surfei nas primeiras 10 semanas.  Aliás, por vezes, fui desencorajada a surfar grávida.

“Mas, você tem certeza que pode surfar grávida?”, “Eu não aconselho!”, “Não acha melhor esperar um pouco?”. 

Ouvi muitas frases como estas (de médicos inclusive).

Em contrapartida, houve conselhos positivos com relação à prática do surfe na gestação.

“Faça tudo que você estava habituada a fazer”, “Vida normal”, “Continue surfando, com mais cuidado, mas não pare” (de médicos também).  

Ufa! Foram nestas opiniões a que me agarrei.

Assim que as 12 semanas se foram, cai no mar. Ah, que saudade! Surfei com cautela e tive a certeza de que o ser que habita meu ventre sentiu minha alegria e surfa feliz comigo.

Surfar com 20 semanas de gravidez é um privilégio. Foto Patricia Vaccarezza / @pato.vacc / @pato_vacc
As fotos são de Patricia Vaccarezza e os biquinis da A.mar <3

Conselhos sábios

À medida que comunicava minha gravidez, ouvi que receberia muitos conselhos, mas que eu deveria seguir meus instintos. É verdade, todos querem aconselhar e indicar as melhores práticas.

No entanto, no meu caso, só tenho a agradecer meus ‘conselheiros’. Sem falar nas surfistas super experientes que engravidaram e deram à luz praticamente juntas.

Claudia Gonçalves, Marina Werneck e Nicole Pacelli compartilharam com o blog vivências e dicas preciosas. As três surfaram praticamente durante toda a gravidez!

Nicole Pacelli e Rudá

Você surfou durante toda a gravidez. Como foi esse processo de surfar com tantas mudanças no corpo mês a mês? 

Confesso que fiquei um pouco insegura no começo. Ainda mais porque eu ia competir os Jogos Pan-americanos. Mas minha médica me deu confiança, disse que eu surfava praticamente todos os dias da minha vida e portanto meu corpo estava acostumado. Fui super confiante pro Pan e acabei conseguindo uma medalha (eu estava com 3 meses de gestação). Esse resultado me deu confiança pra continuar surfando a gravidez toda. 

No começo foi mais fácil, porque eu ainda não tinha barriga, mas conforme a barriga foi crescendo tive que ir me adaptando: aumentei minhas pranchas, não surfava em mares muito grandes. 

Nicole por Suellen Nóbrega.

O bom é que eu surfo de SUP e mesmo com nove meses de gestação, segui surfando. O que mais reparei durante esses meses é como o surfe só trouxe benefícios na minha vida até agora: meu equilíbrio está ótimo, estou disposta, não tive dores nas costas (coisas que são super normais durante a gravidez). Em uma fase que a maioria das pessoas vê a mulher como fragilizada, eu me senti mais forte que nunca, tudo isso graças ao surfe.

Qual dica você dá para as surfistas gestantes? 

Primeiramente você deve conversar com seu médico (a), algumas complicações no início da gravidez impossibilitam a prática de exercícios físicos (eu conversei com a minha quando descobri que estava grávida). O mais importante é estar confiante. Se você tiver alguma dúvida do tipo: “será que o mar está muito grande?”; ”será que eu vou cair?”; “Acho que está muito difícil pra varar”,  aconselho não entrar no mar. 

Essa é uma fase para curtir e se sentir bem com o bebê, não é uma fase pra se arriscar ou querer melhorar a performance. Mesmo eu, como campeã mundial, no final da gravidez só entrava em mares pequenos onde tinha certeza que não iria tomar na cabeça ou cair da prancha. É a hora de você evoluir como mulher e sentir essa conexão mágica com seu bebê.

Qual foi o maior desafio e as belezas de surfar na gestação? 

Acho que o Panamericano foi o meu maior desafio de surfar na gravidez, porque o mar estava bem grande e eu estava no meio de um dos campeonatos mais importantes da minha vida. Então, optei por não falar pra ninguém. Porque não queria que as pessoas ficassem preocupadas e eu acabasse me sentindo fragilizada, ou pensasse que eu não devia estar ali competindo. Foi um mix de sentimentos, mas no final deu tudo certo. Depois do Pan consegui relaxar e curtir a gravidez, senti uma conexão muito forte com o bebê quando estava dentro do mar, esse é o meu maior prazer de surfar na gravidez, é inexplicável.

Claudinha Gonçalves e Clara

Em recente encontro que tive com Claudinha, quando a surfista estava com oito meses de gestação, ela dizia o quão mágico era o momento.

Além disso, ela celebrava um belo encontro entre mulheres que tinham o sonho em comum de tornarem-se surfistas.

“A gravidez meu deu mais raiz, mais calma, me dei conta de que não precisava fazer tudo ao mesmo tempo”, conta a surfista à frente do projeto ‘Coolture Life’.

“Entendi, com a gravidez, que tinha que respeitar esse momento, meu corpo, minhas vontades, é um momento muito especial e eu já estava planejando. Inclusive é uma vontade que tinha há bastante tempo”. 

“Eu ficava imaginando que esse momento iria ser muito diferente de tudo, que eu não poderia fazer mais nada, e não é assim”, disse a surfista que confessou ter ficado mais criativa com a maternidade.

Marina Werneck e Moana

“Minha gravidez, desde o começo, foi super tranquila e abençoada, não tive enjoos, fiquei ativa. A grande transformação aconteceu nos últimos meses, tanto no físico quanto no mental e espiritual, completa e muito mágica. Algo que nunca vivenciei, com certeza a maior onda que eu já peguei na vida”, contou Marina quando estava com 8 meses de gestação.

“Senti muito sono, principalmente no terceiro mês.”, diz Marina que descobriu a gravidez com quase dois meses. 

“Estava surfando bastante, trabalhando pra caramba, pegando mar grande, e depois do terceiro mês, com o sono, ainda assim continuei treinando e surfando, num ritmo mais lento. Mas no segundo trimestre senti que minha energia tinha retomado e aproveitei, pois estava me sentindo bem”, completa.

“Yoga, sling são práticas que já fazia, surfe e natação fiz bastante, com adaptações. Além disso, tive um acompanhamento super bacana com nutricionista e planos alimentares, e que também auxilia na amamentação” disse Marina. “Isso me ajudou a manter saudável e com um peso bom”. 

“Surfei até o sétimo mês, pois minha barriga cresceu muito no oitavo, está mais complicado (risos), e fora isso está sendo incrível e mágico.” Finaliza

Nota: as três surfistas concederam entrevista ao blog quando ainda não tinham dado à luz. Rudá, de Nicole e Lapo, nasceu dia 13/02/2020; Clara, filha de Claudinha e Rafael, dia 14/02/2020; e Moana, de Marina e Felipe, veio ao mundo em 16/02/2020;

Autor: origemsurf

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3 Comentários

  1. Janaina, que bom ver um post tratando deste assunto que gera tanta desinformação.
    E que bom que você foi orientada a manter seu surfe e suas viagens.
    Acompanhamos dezenas de surfistas ao longo destes anos, atletas e praticantes, que se mantiveram no mar durante a gestação, pouquíssimos casos foram recomendadas a não surfar, e por questões de saúde geral.
    Na literatura médica há poucos estudos sobre o surfe e gravidez, mas pra outro esportes existem inúmeros estudos.
    Fora a questão do trauma, batida na agua ou na prancha; o estresse térmico ( água quente e temperatura ambiente também) é o que mais deve ser evitado durante a gravidez. Quedas curtas, hidratação adequada antes e após e banhos frios após sair do mar, são recomendações para todas.
    Entre 28 e 30 de maio teremos o V Simpósio de Saúde&Medicina do Surfe, com programação em São Paulo e Rio de Janeiro, um dos assuntos abordados será a Mulher e o Surfe.

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    • Oi, Dr. Marcelo! Obrigada pela contribuição, adorei as recomendações! Sobre o V Simpósio conte com o blogue para divulgar as informações!
      Um abraço!

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  2. Estou me programando para engravidar nos próximos meses, é o artigo foi muito útil! Foi muito bom ter como inspiração a gravidez de todas essas surfistas. Parabéns pela iniciativa, Janaína!

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