Era 2001, tinha oito anos quando comecei surfar. Menino, preto, classe média de Cabo Frio, Rio de Janeiro, bastava andar cinco minutos para chegar à praia.

Por Lucas D’Assumpção, jornalista e criador do blog Cutback

O vizinho, um chaveiro e também negro, que por falta de oportunidade largou talento e sonho para se dedicar a dar aulas de surfe, foi o responsável por me apresentar o esporte.

Lembro do dia em que ofereci ajuda a ele para carregar as pranchas até à praia. Ele agradeceu e em troca Marquinho daria algumas aulas pra mim. 

Na verdade, meus pais já haviam falado com o professor. Então a ajuda, quase uma encenação arquitetada, foi o início de um pequeno plano: fazer com que o sonho de Marquinho pudesse reverberar em mim.

Fiquei encantado logo de cara, principalmente depois de ter ficado de pé na prancha, deslizando nas ondas. A cada orientação do professor eu o admirava mais.

Um balde de águas claras

Começou ali a fixação pelo esporte, que anos mais tarde se tornaria profissão. A cada treino, a evolução, uma nova onda, lá estava Marquinho, o único negro surfista que eu conhecia. Coisa mágica! 

À medida em que os anos foram passando, meu entendimento e evolução no surfe eram notórias.

Quando completei 12 anos, comecei a competir. A decisão trouxe à reboque o primeiro choque de realidade: havia apenas eu de negro naquele ambiente. O sentimento de não-pertencimento foi sendo alimentado ao longo dos eventos. “Não faço parte daqui”, pensava.

Lucas ainda menino, encantado com o surfe.

Ainda assim, insisti até os 15 anos, quando finalmente parei de competir. Restava a mim somente o freesurf. 

Junto com Marquinho, meus pais eram os maiores incentivadores. O que me levava à pergunta: por que aquilo não deu certo se havia um bom treinador, dedicação e apoio dos meus pais? A resposta é clara como a cor da pele da elite do surfe.

Passada a empolgação dos torneios, iniciou-se um vazio. Outras referências deveriam aparecer, mas onde estavam os negros? 

Mas foi no extinto canal de surfe, o “Woohoo”, que, além de me manter em contato com a modalidade, fui “apresentado” a Jojó de Olivença.

Lembro-me como se fosse ontem, Jojó dando as caras no programa em que o jornalista Bruno Bocayuva apresentava lendas do esporte.

Opa! O ânimo estava de volta. 

Representatividade importa!

Anos mais tarde, o ensino médio superado, estava mais distante do esporte, mas a referência de Jojó seguia viva na minha mente. 

Em 2012, ingressei na faculdade de Jornalismo com o objetivo de tornar-me um comunicador de esportes de ação. 

Uma vez mais, no entanto, o balde de água fria: cadê a referência negra no meio? O medo bateu, e em princípio me conformei sobre falar de futebol. Por falta de um norte e talvez por ser mais “fácil” sentir-me representado pelo fato de o maior jogador de futebol de todos os tempos ser negro. Embora representatividade não seja tarefa fácil para nós.

Pouco tempo depois, nem no meio esportivo estava mais. Em busca de experiência na profissão, fui “falar” de política, páginas policiais e assuntos do cotidiano. Enfim, um jornalista, não?

Formei-me em 2016 e permaneci na área, embora não a que sonhara quando entrei na faculdade.

O ponto de virada dessa história se deu em 2018, quando escrevi para um jornal local e me deparei com uma pauta: contar a história de um surfista de Búzios, que havia acabado de entrar no circuito mundial do WQS. 

O fogo reacendeu. Duas matérias foram o suficiente para retomar as ideias do jornalismo de surfe.

No entanto, ao final daquele ano fiquei desempregado. O desespero batia.

Já pensava abandonar a profissão para arrumar um emprego qualquer. Os meses passam, nada de serviço. Freelas aqui e ali. A vida seguindo. 

Eis que surge a ideia de criar meu blogue de surfe

Assim, em julho de 2019, surge o Cutback. O único site de surfe do interior do Rio de Janeiro. Logo nos primeiros dias de vida do site, Cabo Frio recebeu uma etapa estadual. E lá fui para a primeira cobertura de surfe da minha vida.

Como de costume, constatei que eu era o único negro na sala de imprensa.Claro, havia outros, mas trabalhavam onde sempre trabalham, infelizmente.

Entrevistei competidores, todos brancos. Consegui falar com Leo Neves, que Deus o tenha. Tornei-me amigo pessoal de Victor Ribas, um dos maiores da história do esporte. Vibrei ao publicar e cobrir meu primeiro evento da vida. Mas a dúvida sobre o paradeiro dos negros continuou.

Mas foi quando criei o canal no YouTube, que percebi como minha presença incomodava. “Esse neguinho tem cara de surfista da onde? (sic)”, “esse neguin não sabe de nada”…  As ofensas passaram a ser comuns.

Engolia e engulo seco ainda

Mas, sigo ainda em frente, com uma pergunta que martela minha mente todos os dias: onde estão os negros da mídia especializada do surfe?

Lucas entrevista Leo Neves, morto em novembro do ano passado. Foto: Julianna Pereiria.

Nota de Janaína: após receber o texto de Lucas, Gerson Filho entrava no grupo de WhatsApp formado por “jornalistas de surfe”, o qual faço parte. Não o conhecia. Gerson é o único jornalista negro do grupo, entre os trinta participantes. Em tempo, a ausência de negros no grupo se dá como reflexo do mercado, já que a intenção do mesmo nunca foi a de “filtrar” deliberadamente a presença de negros, pelo contrário.