Uma coisa que me incomoda muito nas campanhas publicitárias das grandes marcas de surfe feminino (marcas das quais eu sou cliente, por sinal) é que a imagem da mulher surfista é quase sempre a mesma: jovem, magra, loira, cabelo liso ou ondulado e pele bronzeada. Se você não reparou ou duvida de mim, vai lá e faz o teste. Entra no Instagram das três gigantes (que não vou citar aqui, mas você que surfa, sabe quais são), e me diz se as primeiras fotos não confirmam o que eu estou falando

por Marcela Lima, jornalista e autora do blog Esporte Fino

https://www.instagram.com/p/CDhreTWpAzN/
Reprodução Instagram.

Antes de começar a escrever esse post, eu fiz isso também. E o que vi foi exatamente o padrão que acabei de descrever. Não significa que essas marcas não postem mulheres com outros corpos, tons de cabelo e pele. Até postam, mas a proporção é tipo uma para um ‘zilhão’. Para cada foto de menina negra nos perfis de marcas como essas que eu mencionei, existe uma gigantesca quantidade de outras fotos de meninas brancas e loiras. 

E sabe qual é o problema disso? Na real, existem muitos problemas nisso. Mas vou focar na mensagem que passa para muitas mulheres: “Esse esporte não é para você.” Eu mesma pensei isso, anos atrás. E gente, eu me considero super dentro do padrão. Sou uma mulher magra, baixinha, bronzeada no verão rs e com cabelos ondulados. Para você ver que esse tipo de valorização de um único padrão pode causar um impacto negativo e limitante em qualquer uma de nós.

A surfista Nuala Costa. Foto Debora Hoft.

Dentro ou fora do padrão, que essas marcas consideram o ideal de beleza, todas temos nossas inseguranças quanto à aparência. Umas mais, outras menos. Nós, surfistas, mulheres, meninas, somos muitas. Somos gordas, magras, jovens, idosas, loiras, morenas, negras, com deficiência física ou não. Enfim, somos plurais. E vamos gostar de comprar as peças de vocês ainda mais se nos virmos representadas de forma igual.

Meninas e mulheres que estão há um tempo nessa caminhada rumo à conquista da autoestima estão puxando outras para esse movimento. Eu fui puxada, estou me fortalecendo a cada dia e quero puxar outras também. E assim a gente vai mudando essa realidade injusta e desequilibrada. 

Elizabeth, do CurvySurferGirl. Foto Tommy Pierucki.

Você não precisa ter um corpo X para usar um biquíni. O mesmo vale para o surf. Você pode subir em cima de uma prancha e deslizar numa onda. Você pode ser uma sereia do jeito que você é. 

Às marcas que entenderam a pegada e estão buscando produzir um conteúdo mais plural e inclusivo, meus parabéns! Esse é o caminho. Às musas maravilhosas que estão aí, desafiando esse padrão tão restrito e mostrando que o surf pode ser para todas, entre elas @surfistasnegras; @tpmtodasparaomar e @curvysurfergirl meus PARABÉNS com caixa alta mesmo, porque é por causa de mulheres como vocês que o mar está cada dia mais florido.

Surfista Janaína Pedroso. Foto Patrícia Vaccarezza.