Evento da WSL, Liga Mundial de Surfe, ocorrido ontem, 18, em Itamambuca, Ubatuba, reuniu celebridades e surfistas profissionais em festa voltada para a mídia, com a área de isolamento demarcada na areia e surfe noturno

por Janaína Pedroso

Desde que foi divulgado, há algumas semanas, a liga manteve sigilo quanto ao local do evento com intuito de evitar aglomerações. Afinal o país ainda atravessa uma pandemia.

Porém, e como já era de se esperar, a informação vazou à medida que o tempo passava e dias antes do evento, a tal localização secreta já não era mais segredo para muita gente.

Evento secreto?

Se esse era o intuito da WSL ao realizar o ‘Onda do Bem’, a Liga errou e errou feio. Ao optar por uma praia como Itamambuca, longa e com inúmeros pontos de acesso, deixou claro que o fator “secreto” não era nem de longe uma prioridade. É impossível conter a presença do público em uma praia como Itamambuca.

Além de moradores e turistas que já estavam em Ubatuba, teve gente vindo à cidade especialmente para assistir ao festival. 

Público em Itamambuca próximo à grade de isolamento. Foto Janaína.

Priscilla, 40 anos, veio de Maresias e marcava presença colada à grade de isolamento. “Poderiam ter colocado a gente mais perto, não tá tão ruim, eu entendo, mas acho que estaria todo mundo mais contente se estivessemos um pouco mais perto”, afirma a espectadora apontando para o palanque.

Para o surfista que preferiu não se identificar o evento foi uma piada. “Desculpe, mas esse evento é uma patifaria. Você viu na Austrália? Aquilo sim foi um evento legal, competitivo, para os atletas voltarem ao ritmo. Isso aqui é festival, e estamos numa pandemia”, esbravejou o esportista, que saiu do mar também lamentando o crowd na água.

Quem também não ficou feliz com o evento foi Suzana Reyes, 46, vendedora de sorvetes. “Isso aí espantou meus clientes, não vendi nada até agora. Eu fico no canto, ali no riozinho, e eles fecharam a praia”, lamentou.

Muvuquinha tenta assistir de longe ao evento. Foto Janaína.

Tentando chegar mais perto da grade de isolamento estava o surfista Guilherme Boyadjian, 44. “O evento é muito legal porque tem o objetivo da segurança, com protocolos, está bonito”, disse o rapaz que está em Itamambuca passando a quarentena.

Máscara para que?

Entre os que se aglomeravam junto à grade de isolamento, bem longe do palanque monstruoso de grande por sinal, ninguém usava máscara. 

Para Beatriz Rodrigues, 25, que veio de Taubaté assistir ao evento, a praia não exige tal proteção. “Na praia eu não uso”, disse a jovem que soube do evento por meio de uma amiga moradora de Ubatuba.

Durante a noite, a aglomeração foi na costeira. Vídeo que circulou no WhatApp mostrou público nas pedras, na tentativa de assistir à performances dos ídolos.

Competição ou festa?

Muito mais do que um evento de surfe competitivo, o ‘Onda do Bem’ foi na verdade um festival. Com transmissão tediosa, a sensação que fica é que o evento só foi divertido para os participantes.

Obviamente a realização de um evento de surfe competitivo, seguindo protocolos de segurança era mais do que necessário, haja vista a necessidade dos atletas de competirem, voltarem ao ritmo depois de quase um ano sem evento. Mas uma festa, com a presença de celebs e formato ‘tag team’ era completamente desnecessária.

Afinal, o clima é de conscientização e respeito às mais de 150 mil vidas perdidas e todos os familiares e amigos dessas pessoas que morreram vítimas da Covid-19. Além de todos que, de um jeito ou de outro, estão se sentindo prejudicados com o isolamento social (para os idiotas que ainda o fazem, claro, como eu).

Pontos positivos

Se esse evento teve algum ponto positivo foi o de trazer Julia Santos, atleta talentosíssima, mas que sofre com a pouca oportunidade em termos de patrocínio e divulgação. Infelizmente a performance de Julia não a levou para o primeiro lugar, mas já que esse evento foi mesmo uma grande celebração, quem se importa com resultado?

A voz de Glenda Kozlowski na locução foi um acalento. Como é bom ter uma mulher tecendo comentários em um evento de surfe, modalidade predominantemente masculina, com vasto histórico machista, aliás.

Por fim, a reflexão que trago com esse ‘textão’ não tem a intenção de desrespeitar WSL, atletas, celebridades e profissionais que participaram do evento. Muito pelo contrário. Todos cumpriram seu papel.

A verdade é que todos erramos. E erramos o tempo todo. Erramos às vezes tentando acertar, outras não. Todavia, acredito que um erro só valha à pena quando é seguido de reflexão para que no futuro, caso haja oportunidade, não seja repetido.

Na primeira hora da manhã, praia ainda vazia, consegui fazer minha caminhada em área que mais tarde seria fechada…

Um adendo: se o evento foi em Ubatuba, nada mais justo que o valor doado ficasse na cidade. Porém, a caridade foi feita à instituição do Guarujá (SP). E apesar da presença de dois atletas de Ubatuba, também senti falta de nomes mais locais…

Beijos, boas ondas e use máscara se estiver aglomerado na praia 😉