Não sei como começar esse texto. São seis da manhã, acabo de amamentar meu filho, que agora passeia no colo do pai para que eu consiga me concentrar.

por Janaína Pedroso

Enquanto escrevo, a panela de pressão está prestes a apitar, estou preparando o feijão da semana. Os cães latem, a chuva fina cai lá fora e posso ouvir o barulho das ondas que estouram a alguns metros. Minha vontade é sair correndo pro mar, largar tudo, surfar e esquecer da vida. Ontem foi um dia bom, apesar de ter dormido pouco, consegui surfar uma hora e meia pela manhã.

Mulher, mãe, surfista

O que falar dessa tríade na data de hoje? O que é ser mulher no Brasil? O que é ser mulher surfista no Brasil? Como é ser mulher sob o patriarcado? 

A verdade é que é uma luta ser mulher no Brasil, e olha que sou das privilegiadas: branca, superior completo, classe média; tá tudo certo pra mim. Mas apesar dos privilégios, ainda sou mulher. 

É pesado ser mulher, cansativo muitas vezes. Somos diariamente colocadas umas contra as outras, de modo que não somos irmãs. Crescemos na escola da vida que ensina a olhar outra mulher como rival.

‘Surfar mulher’ é matar um leão por dia. E não sei bem explicar o motivo concreto que faz com que me sinta assim.

É saber que talvez eu seja aceita naquele ambiente, não porque simplesmente amo o mar ou o surfe, mas talvez porque a minha presença faz ‘florescer o outside’. Já ouviu dizer em crowd florido? Florido o escambau! Mulheres na água não são flores ou bundas gostosas, são surfistas e ponto.

Aproveito o gancho para sugerir a você, homem que não quer ser um macho escroto na água, evitar desde já algumas expressões machistas:

  1. achei que você não fosse dropar
  2. belo backside
  3. surfa que nem homem
  4. você surfa bem para uma mulher
  5. o crowd está florido

Sororidade no surfe, alguém viu?

Já que o texto traz um tom de guia, práticas aceitáveis ou não no surfe, ou sei lá o que, as mulheres também podem fazer ‘a parte que lhes cabe’, para melhorar o ‘esquema todo’.

Me perdoem as manas dispostas, mas venho de um tempo em que mulher na água mal se cumprimenta; até hoje, confesso, forço-me a olhar no olho de cada menina que trombo na água, mas muitas vezes, a maioria, não tenho o mesmo olhar de volta. 

Ainda falta um longo caminho a ser percorrido. E acredito que a ausência de sororidade entre as surfistas não tem a ver com o ambiente, mas com a sociedade mesmo. Nesse sentido, o surfe é um microcosmo apenas. Mesmo assim fica a dica…

Menos machismo, mais respeito. Menos flores, mais igualdade. Menos rabeadas, mais humildade…

Allannah Brown, surfista inglesa rabiada, agredida e expulsa da água em Medewi, Bali, pelo local Muklis Anwar. O caso repercutiu e ele acabou perdendo o patrocínio. Foto Facebook Allannah Brown.