Sempre tive uma ligação muito forte com o mar – culpa do meu sobrenome ou do sol em peixes. Estar muito tempo longe dele nunca foi uma opção. Por me considerar filha das ondas, pensava que voltar a surfar – depois das marolas que pegava na adolescência – seria fácil.  Afinal, se muitas coisas da vida são inesquecíveis como andar de bicicleta, o surf haveria de ser uma delas. 

por Anna Del Mar

Logo na minha primeira aula ficou claro que eu precisaria trabalhar (e muito!) a parte muscular e condicionamento físico se eu quisesse ter alguma diversão ao invés de só tomar onda na cabeça. 

De cara meu primeiro problema foi não ter uma base definida: meu corpo parecia recusar-se ao backside e eu surfava ora como goofy ora como regular. Senti-me a próxima revelação do surf alternando as bases. Mas a tirada de onda durou pouco tempo e foi prejudicando a coordenação e agilidade do meu drop. Enfim me (re)descobri goofy.

Então veio todo o conhecimento de leitura de mar e dos jargões do surf, o encontro perfeito da matemática com a fluidez da mãe natureza.

“Você ainda está pegando onda de longboard ou já diminuiu?!” foi a frase que ouvi invariavelmente de todos os amigos e amigas surfistas com quem conversei neste período. Pareceu-me natural, então, que o próximo passo, à medida que comecei a ganhar confiança em uma longboard biquilha após as primeiras aulas, fosse diminuir de prancha.

A transição vem sendo sofrida, um reaprendizado precoce. Achar a prancha ideal para o meu tamanho e peso e treinar o corpo a uma nova noção espacial não é tarefa fácil. Uma 7.0 de 55 litros foi a eleita. “A queridinha das meninas” segundo meu instrutor, Pedro Oliveira, da Maré – Surf is Cool. “Ela tem um formato de pranchinha porém não perde flutuação e volume.  É uma prancha bem menor que o long porém tem uma remada boa, o que facilita a transição” explica.

Esta recente empreitada me levou a um questionamento: afinal, será que eu quero mesmo surfar de pranchinha? 

Parece que existe uma crença velada de que melhorar performance é sinônimo de diminuir de prancha; mas o esforço físico necessário para aguentar a remada em uma prancha com pouca flutuação pode acabar tirando a diversão do esporte.  São iradas as manobras no ar mas é lindo também o balé em cima de um longboard. Deve haver espaço para todos os estilos, sem julgamentos.

Penso que na vida e em cima da prancha, é tudo uma questão de equilíbrio. E assim, decido que vou deixar meu corpo decidir o tipo de surf ideal para mim, sem imposições para atender padrões ideias. Livre, como o mar….