Em 1981 minha família se mudou de um apartamento para uma casa. Mudamos de uma parte adensada da cidade para uma mais residencial e para a minha sorte, na minha rua morava minha melhor amiga Claudia, e seus irmãos mais velhos, Bruno e Alberto Alves, os dois surfistas e aventureiros.

por Paula Rocha

Bruno, o mais velho, tinha uma kombi branca adaptada para ser uma casa. Ele era quase hippie, viajava o tempo todo sempre atrás do swell, que na época aprendi que é o grande responsável pela formação das ondas. Eu que até então fui uma menina de apartamento e clube, de repente descobri que poderia ser livre.

Maranhão. Foto Alberto Alves
Mossoró Foto: Alberto Alves

A Claudia viajava com os irmãos e eu também comecei a viajar com eles. Nosso destino era o litoral sul do Rio de Janeiro, Ubatuba e às vezes litoral norte de São Paulo. Na época não havia aplicativos de previsão de ondas, tudo era no feeling e na observação. Muitas vezes descíamos a pé a estrada para Trindade, em vão, mas tudo era uma curtição. O contato com o mar, com a natureza me fazia muito bem, eu voltava feliz e renovada do final de semana.

Nesta época, Bruno e Alberto já tinham viajado por todo o litoral do Brasil e feito algumas viagens internacionais. Possuíam um acervo precioso de imagens. Eles viajavam e fotografavam tudo: o surfe, o povo, a fauna e a flora locais.

Era incrível participar das sessões de slides na casa deles com músicas e explicações sobre mundos e culturas muito distantes: Havaí, Bali, Austrália, África do Sul… aprendi muito sobre a cultura desses países e o sobre o surfe naquelas noites. Eu era uma pirralha tentando entender aquele mundo novo que se abrira na minha vida. Observava os códigos, roupas, músicas e linguajar dos frequentadores. As fotos das manobras dos surfistas na água eram muito comentadas e logo entendi o que era uma batida e um cut back, regular (base do surfista, que coloca o pé esquerdo à frente da prancha) e goofy (pé direito à frente). Meus olhos brilhavam fascinados a cada aventura.

Uma noite fui com a Claudia e seus irmãos no Carbono 14, um centro cultural no Bexiga, onde acontecia de tudo na cidade, assistir um filme de surfe. Lá tive a certeza de que tinha encontrado minha tribo!

África do Sul – 1982 Foto: Alberto Alves

Todas as outras pessoas que eu conhecia viajavam no máximo para Miami, Disney e Nova Iorque.

O início da Fluir

Em uma tarde de 1983, Bruno e eu estávamos sentados no meio fio em frente à minha casa e ele me contou que iria montar uma revista de esportes radicais. Já tinham até escolhido o nome: Fluir.

Achei o máximo! Era um bom destino para tanta imagem linda e histórias incríveis que estavam até então represadas e restritas a um grupo de amigos. Na época existia a Visual, uma revista carioca e que cobria os eventos de surfe e asa delta do Rio de Janeiro. O surfe estava crescendo muito e tinha virado uma febre em todo litoral brasileiro. Faltava um meio de comunicação que falasse com essas pessoas.

A primeira edição saiu com fotos dos acervos das inúmeras viagens dos irmãos Alves e com a colaboração das fotos artísticas e lindas do Klaus Mitteldorf e do olhar profissional do Alberto Abreu Sodré, o Cação.

Foi incrível presenciar a materialização de uma ideia. Amigos jovens que se uniram para realizar um sonho. Eram empreendedores com propósito e que usaram seu network e muita autoconfiança para arriscar e inovar. Nesta época eles levaram a sério a frase: Este é seu mundo, faça-o à sua maneira ou alguém o fará por você.

Nascia aí a principal mídia do surfe brasileiro e que ajudou muito na profissionalização do esporte no Brasil. Mal sabia que todo esse meu fascínio anos depois iria me proporcionar anos mais tarde ser curadora de uma exposição de fotografias de surfe. Mas essa é outra história….

Foto: Bruno Alves
Fluir Número 1