Ah, como é gostosa a sensação da prancha nova! Ainda mais quando ela é ‘shapeada’ (feita) especialmente para você. Nunca tive uma prancha sob medida ou encomenda e confesso: fiquei emocionada quando li meu nome escrito nela.

por Marcela Lima

Por isso, hoje resolvi compartilhar as sensações vividas durante os primeiros dias de surfe com minha nova prancha, uma funboard (versão encurtada da longboard, muito usada para surfistas que desejam fazer a transição para a convencional prancha de surfe). 

Mas antes eu vou contar um pouco sobre como cheguei até ela, ou melhor, como ela chegou até mim.

Sonho da vida: ser surfista

Quando comecei a surfar (de longboard) queria muito ter uma prancha de surfe. Peguei minhas primeiras ondas no Arpoador, na Zona Sul do Rio de Janeiro, onde raramente se vê alguém surfando de funboard ou de longboard. Com exceção dos alunos iniciantes, que aprendem na espuma a dar seus primeiros “drops” com os pés sobre enormes pranchas de espuma, as ‘softboards’.

Isso me fez pensar que prancha grande era só para quem não sabia surfar, ou no bom surfês, “coisa de haole”. Um pensamento limitado e equivocado, provocado por uma mistura de ignorância com vaidade.

Primeiro que o tamanho da prancha não é prova alguma de nível de surfe. Segundo que, a quem eu queria enganar? Quando aprendi a surfar eu era haole sim, todo mundo é ou já foi um dia. Faz parte.

Mas isso eu sei agora, lá atrás eu queria a pranchinha e pronto. Comprei uma Evolution 6.2 com bico estreito e 40 litros de volume. Mesmo com essa litragem altíssima, demorei muito tempo até me sentir confiante com ela. Afinal, eu não tinha braço, nem segurança suficiente para entrar nas ondas com aquela prancha.

Pranchão, por que não?

Meu preconceito com as pranchas maiores começou a se desconstruir quando vi a surfista Luiza Coutinho surfar com uma softboard 7.5 pés. Ela se divertia tanto que acabou me convencendo a ter uma funboard de espuma também.

Quando eu mudei da pranchinha para a funboard não senti que foi um retrocesso. Parecia que eu tinha pegado a estrelinha mágica do Super Mário. Ganhei remada e velocidade para entrar nas ondas, requisitos básicos para qualquer aspirante a surfista. Primeiro você precisa aprender a entrar na onda sozinho, depois a pegar a parede, aí então a fazer as manobras mais elaboradas e assim por diante.

Meu terceiro dia de surfe em Maracaípe, PE – Foto: Tonho DeLira

Peguei muita onda com minha fun soft. Muita onda mesmo! Meu nível de surfe deu um salto. Esse ano eu senti que devia dar um passo a mais. Eu queria uma nova fun, só que de epóxi. Então, quando meu marido me perguntou o que eu queria de aniversário, não hesitei em pedir uma prancha.

O que não imaginava era que ele ia escolher ninguém menos que Fábio Gouveia, uma lenda do surfe com quem eu já tinha feito dois surfcamps. Logo, ele já conhecia meu nível de surfe e sabia o que iria funcionar para mim.

Dito e feito. Minha funboard 7 pés caiu com uma luva para o meu surfe! Era tudo que eu precisava nesse momento. Ela me dá bastante velocidade para entrar na onda e a estabilidade que eu preciso para dropar com segurança.

A estreia da prancha nova

Ela foi devidamente testada num lugar muito especial: a Praia de Maracaípe, em Ipojuca, Pernambuco. Durante a semana que passei lá, surfei três vezes. No primeiro dia peguei o finalzinho de um swell. Confesso que fiquei com medo e não quis entrar sozinha na água.

Felizmente em Maracaípe tem várias escolas de surfe e eu acabei tendo a sorte de fazer uma “queda supervisionada” com um experiente surfista local, com formação em resgate e salvamento no mar, que atende pelo apelido de João Cangaceiro. João foi meu ‘anjo da guarda’ aquele dia.

Mas mesmo acompanhada, eu estava com um medo desproporcional. Varamos a arrebentação e assim que cheguei ao outside sentei na prancha e caí no choro. “Que medo é esse, Marcela?”, eu me perguntava. Minhas emoções estavam a flor da pele. Talvez não fosse apenas pelas ondas, mas também pela prancha nova, quem sabe? Mas lá no fundo algo me dizia que eu estava pronta para aquele mar e que tudo ia ficar bem.

Meu professor me viu chorando e disse que meu medo ia passar não quando eu pegasse a primeira onda, mas quando eu levasse a primeira vaca. E realmente é verdade esse ‘bilete’. Às vezes a gente fica tão ansioso que nosso problema ganha uma proporção irreal. Aí quando a gente se depara com ele – a vaca, no caso, e sobrevive, pronto! Ele fica bem pequenininho. Pelo menos comigo é assim.

Nos dias de surfe seguintes não teve choro, apenas sorrisos. Fiquei “soltinha na vala”, que é como os surfistas falam quando uma pessoa está confortável e se divertindo no mar.

Durante esse dias, acabei conhecendo duas surfistas do Recife, a Laís Cabral e a Suemi Kushida, que estavam fazendo um bate e volta para surfar em Maracaípe. Fiquei feliz por compartilhar as ondas com essas duas mulheres incríveis e viver momentos mágicos para guardar na lembrança para sempre.

Bom gente, esse foi apenas o primeiro surfe que eu fiz com a minha prancha nova. Imagina só o mar de aventuras e fortes emoções que me aguarda. Já estou ansiosa para viver tudo isso e contar para vocês, claro!

Soltinha na vala! – Foto: Tonho DeLira